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Vem aí a nova regra da Poupança, que vai mudar de novo para a classe média

Pacote de propostas é analisado pelo Ministério da Fazenda e Banco Central. O objetivo é evitar o esgotamento do crédito habitacional à classe média

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O financiamento imobiliário voltado para a classe média brasileira atravessa um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos. Em um cenário marcado por uma longa sequência de juros elevados e saques contínuos nas cadernetas de poupança, o setor da construção civil e a equipe econômica do Governo Federal vêm reestruturando as regras do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). A virada de chave começou a desenhar seus primeiros efeitos práticos ainda na transição iniciada entre o fim de 2025 e ao longo de 2026, mas o apetite por aprimoramentos levou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) a apresentar um novo pacote de propostas ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central. O objetivo é evitar o esgotamento do crédito habitacional e garantir que as prestações caibam no bolso das famílias.

A reestruturação em curso foi desenhada para modernizar o modelo tradicional do SBPE, no qual os bancos eram obrigados a direcionar 65% dos depósitos da poupança para a habitação, enquanto 20% ficavam retidos em depósito compulsório no Banco Central e 15% seguiam para aplicação livre. A mudança acordada reduziu temporariamente a taxa de compulsório de 20% para 15%, permitindo que a parcela de 5% fosse redirecionada ao novo regime de estímulo.

Sob essa nova lógica, a poupança passou a funcionar de forma maximizada e integrada ao mercado de capitais: à medida que as instituições financeiras captam recursos privados no mercado — por meio de instrumentos como Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) — para aplicar no Sistema Financeiro da Habitação (SFH), elas ganham o direito de utilizar proporcionalmente os recursos da poupança em operações livres de maior rentabilidade.

MAIS R$ 20 BILHÕES PARA FINANCIAMENTOS

Essa flexibilização inicial permitiu a liberação de até R$ 20 bilhões em novos financiamentos, liderados pela Caixa Econômica Federal. Na prática, o modelo permitiu expandir a oferta de crédito com juros mais atrativos, limitados ao teto do SFH de 12% ao ano mais a Taxa Referencial (TR). A medida beneficiou diretamente a aquisição de imóveis de até R$ 2,5 milhões, permitindo que unidades negociadas entre R$ 1,5 milhão e R$ 2,5 milhões migrassem de taxas de mercado que chegavam a 19% ao ano para o limite regulado do SFH.

A eficácia dessa reformulação refletiu-se de forma direta nos indicadores de desempenho do setor ao longo de 2026. Segundo o Boletim Informativo de Crédito Imobiliário e Poupança da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (ABECIP), os financiamentos imobiliários com recursos do SBPE somaram R$ 16,97 bilhões em agosto de 2026, registrando o terceiro melhor resultado para o mês nos últimos 25 anos.

Embora tenha ocorrido um recuo de 19% em relação a julho de 2026, o montante financiado em agosto representou um salto de 46,6% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o volume total financiado pela poupança atingiu R$ 132,5 bilhões, o que equivale a uma forte alta de 37,5% frente aos R$ 96,4 bilhões registrados em igual período de 2025 e superando também os R$ 116,7 bilhões apurados em 2024. Em termos de imóveis viabilizados, o SBPE atendeu 384,6 mil unidades nos primeiros oito meses de 2026, expansão de 35,9% ante o ano anterior.

Contudo, as entidades do setor alertam que os avanços obtidos ainda não são suficientes para anular os estragos causados pelo ambiente prolongado de juros altos. De acordo com o presidente da CBIC, Eduardo Aroeira, a taxa Selic em patamar elevado atua como um freio na economia e prejudica diretamente os compradores de classe média, que representam 61% da oferta final de imóveis no Brasil. Ele enfatiza que, sob juros de dois dígitos, a prestação do financiamento imobiliário dificilmente cabe no orçamento familiar. Apesar de a construção civil manter previsão de crescimento de 1,2% no PIB impulsionada pelo segmento de alto padrão, pelo programa Minha Casa, Minha Vida e por obras de infraestrutura, a preservação do poder de compra da classe média tornou-se o ponto central das preocupações da indústria.

NOVO TRIPÉ PARA A POUPANÇA

Diante desse diagnóstico, a CBIC levou uma nova rodada de pleitos ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central durante reunião realizada com a Secretaria de Reformas Econômicas. A entidade propôs um tripé de novas mudanças no SBPE para assegurar a sustentabilidade do financiamento residencial.

A principal medida sugerida é o aumento de 80% para 90% na margem de direcionamento obrigatoriamente destinado ao financiamento residencial. Pelos cálculos da entidade, esse ajuste tem o potencial de injetar R$ 75 bilhões adicionais no mercado de aquisição e construção de imóveis avaliados em até R$ 2,25 milhões, oferecendo o alívio necessário para a renda média.

O segundo pilar da proposta apresentada por Eduardo Aroeira e pelo vice-presidente da Comissão da Indústria Imobiliária da CBIC, Ely Wertheim, é a garantia irrestrita da manutenção do teto de juros em 12% ao ano para as operações do SFH.

O terceiro ponto trata da prorrogação do cronograma de transição. O setor pede que a fase de testes do novo modelo seja estendida até o fim de 2027, adiando a implementação definitiva que estava originalmente marcada para 1º de janeiro de 2027. Além disso, a CBIC cobrou maior transparência e divulgação detalhada das métricas do SBPE para que a sociedade e o mercado possam acompanhar a evolução dos dados focados na classe média.

Essas articulações ocorrem em paralelo a outros aprimoramentos nas políticas habitacionais do país. A CBIC tem trabalhado junto ao governo para elevar o teto da Faixa 4 do programa Minha Casa, Minha Vida e viabilizar a ampliação do uso de recursos do Fundo do Pré-Sal, oferecendo alternativas para famílias de renda intermediária. Do mesmo modo, programas como o Reforma Casa Brasil preveem injetar R$ 40 bilhões em crédito para melhorias habitacionais — dos quais R$ 10 bilhões virão do próprio SBPE via Caixa —, embora gerem certo receio no setor produtivo quanto à pressão sobre a inflação de insumos da construção.Tanto o Ministério da Fazenda quanto o Banco Central sinalizaram que as sugestões apresentadas pela construção civil estão sob análise técnica e que eventuais ajustes regulatórios no SBPE serão avaliados antes da consolidação definitiva das regras – que seria já em 2027. 

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