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Comer é um ato tão cotidiano que raramente desperta reflexão. A alimentação marca encontros, celebrações, tradições familiares e faz parte da rotina desde as primeiras horas de vida. Entretanto, para as mais de 70 milhões de pessoas no mundo que convivem com Transtornos Alimentares (TA), a relação com a comida é atravessada por culpa, medo, ansiedade e sofrimento.
No Dia Mundial de Ação contra os Transtornos Alimentares, celebrado em 2 de junho, especialistas chamam atenção para doenças que ainda são cercadas por estigmas e estereótipos. A campanha de 2026 busca ampliar o debate sobre condições que podem atingir diferentes perfis e trazer consequências graves para a saúde física e mental dos pacientes.
O que são os transtornos alimentares
Segundo o Ministério da Saúde, os transtornos alimentares são condições que provocam alterações na alimentação capazes de afetar a saúde física ou o funcionamento psicossocial. No Brasil, estima-se que entre 10 e 15 milhões de pessoas convivam com algum tipo de distúrbio relacionado à alimentação. Entre os tipos mais comuns, estão:
- Anorexia nervosa (AN): caracterizada pela restrição alimentar progressiva, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal. Em muitos casos, leva a perda significativa de peso e desnutrição;
- Bulimia nervosa (BN): marcada por episódios de compulsão alimentar seguidos por comportamentos compensatórios para evitar o ganho de peso, como indução de vômitos, jejuns prolongados, uso de laxantes ou exercícios físicos excessivos;
- Transtorno de compulsão alimentar (TCA): envolve episódios frequentes de consumo excessivo de alimentos acompanhados de sofrimento, culpa e sensação de perda de controle.
Além deles, existem quadros menos conhecidos, como o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (Tare), o picacismo e a síndrome do comer noturno, que também exigem acompanhamento especializado.
Ana Clara Franco Floresi, psiquiatra voluntária do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), comenta que “há um equívoco comum de associar os transtornos alimentares apenas à magreza extrema. Na prática, eles podem se manifestar de diferentes formas e atingir pessoas com perfis variados”.
Os transtornos alimentares são mais frequentes entre mulheres e costumam surgir na adolescência, mas a médica observa que outros grupos também sofrem com os distúrbios. “Existem homens com transtorno alimentar, casos em idade mais tardia, após os 40 anos. Quem tem obesidade tem um risco maior, e a população transgênero também”.
A campanha do Dia Mundial de Ação contra os Transtornos Alimentares, celebrado anualmente em 2 de junho, traz em 2026 o tema “Acabar com o estigma. Começar o cuidado. Juntos”, afim de desmistificar os pré-conceitos relacionados ao TA.
As causas são multifatoriais. Aspectos biológicos, genéticos, hormonais e psicológicos se somam às influências sociais e culturais. A pressão estética e a idealização de corpos magros, por exemplo, são fatores que podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento dos quadros.
Apesar da relevância do tema, o diagnóstico ainda é um desafio. Floresi explica que muitos pacientes passam anos sem receber identificação adequada, especialmente quando apresentam transtornos menos conhecidos ou não chegam a serviços especializados.
“Diagnóstico pode ser difícil por não cair na mão do profissional especializado. O transtorno da compulsão alimentar, por exemplo, estima-se quase uma década para ser identificado”.
Relação do corpo com a comida
Comentários sobre peso, julgamentos estéticos e regras rígidas sobre alimentação podem influenciar a forma como crianças e adolescentes passam a enxergar a si mesmos. “A gente não precisa ter um transtorno alimentar para educar mal a relação com o corpo e com a comida“, observa a médica.
A autônoma Carla Lopes, de 21 anos, conhece esse sentimento desde a infância. Diagnosticada com bulimia e transtorno de compulsão alimentar, ela conta que percebeu ainda muito nova que sua relação com a comida não era saudável.
Apesar disso, a busca por ajuda demorou. Quando decidiu procurar tratamento, já com 18 anos, o transtorno já afetava diferentes áreas da vida. “Eu já sabia que era um transtorno, já sabia que estava errado. Isso estava afetando não só a minha vida particular, mas também as minhas relações”.
O isolamento social foi uma das consequências. Carla evitava encontros com amigos para poupar a exposição da própria imagem, ainda mais se houvesse comida envolvida. “Eu perdi muitas amizades porque eu tinha vergonha de sair de casa. Eu tinha vergonha de tirar uma foto com uma amiga e ela postar essa foto, por exemplo”.
Segundo a nutricionista comportamental Ellen Cocino, especializada em transtornos alimentares, a doença acaba ocupando grande parte dos pensamentos do paciente. “Para uma pessoa que lida com distúrbio alimentar, a vida dela passa a ser sobre corpo e comida. A cabeça pensa o tempo todo nisso”, explica.
“Eu costumo dizer que o transtorno alimentar é um bichinho que se alimenta de números. Do número da calça, número da balança, das calorias…”, acrescenta a nutricionista.
Danos graves à saúde física dos pacientes
Entre os comportamentos associados aos transtornos alimentares estão dietas excessivamente restritivas, jejuns prolongados, compulsões alimentares, indução de vômitos, exercícios físicos extenuantes e o uso inadequado de laxantes e outras substâncias na tentativa de controlar o peso.
Carla viveu parte dessas situações durante o período mais grave da doença. “Eu estava fazendo uso muito abusivo de laxantes. Eu estava, de fato, passando muito mal. Eu estava faltando aula no colégio, porque o meu corpo estava destruído“, relembra. Ela mantinha, ainda, uma rotina intensa de exercícios mesmo sem condições para realizá-los.
Os impactos físicos de um transtorno alimentar são muitos. A dra. Ana Clara Floresi cita a anorexia nervosa, que é tida como a mais danosa ao corpo, e pode causar “constrição, arritmias, alterações gastrointestinais importantes, alterações eletrolíticas, podem ter deficiências vitamínicas e riscos neurológicos. Tem uma dominância de complicações, tanto agudas quanto crônicas também”.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, a mortalidade de pacientes com AN é a mais alta entre todos os transtornos psiquiátricos e doenças mentais. “Morre-se nesse contexto de complicação clínica e também de suicídio“, pontua a psiquiatra.
Em complemento, a National Eating Disorders Association (Neda) afirma que indivíduos com anorexia nervosa tem 18 vezes mais chances de morrer por suicídio em comparação com a população geral. Os com transtorno compulsivo alimentar são 7 vezes mais propensos.
Recuperação é possível com tratamento adequado
A recuperação dos transtornos alimentares exige acompanhamento especializado e por uma equipe multidisciplinar. Foi esse caminho que Carla percorreu ao longo dos últimos anos, passando por psicóloga, psiquiatra, endocrinologista e nutricionista comportamental.
A nutrição é uma das etapas fundamentais do processo. Ellen Cocino, que especializou-se também no Ambulim da USP, explica que a abordagem comportamental busca compreender a história do paciente, sua relação com a comida e os significados que a alimentação assumiu ao longo da vida. “Muitas vezes a nutrição tradicional ignora o contexto emocional, social e cultural do paciente”, conta.
O tratamento no consultório da especialista é dividido em duas fases: a educação nutricional e a fase experimental. “Ajudamos o paciente a desconstruir o rigorismo nutricional. Ele divide a comida entre o que pode e o que é proibido, e o nosso papel é desmistificar isso tudo”.
Só então é que se incrementa a mudança de atitude alimentar. “A gente sempre usa recuperar a saúde. Não usamos ‘vamos aumentar o peso’, porque esse é o maior medo de um paciente com transtorno alimentar“.
Carla confirma que “o maior desafio do tratamento foi comer, incluir a comida”. Ela precisou aprender a lidar com sentimentos de culpa relacionados à alimentação e abandonar hábitos de contagem constante de calorias.
Desafios ainda são muitos
Além do acompanhamento profissional, o apoio da família e da rede de suporte é considerado fundamental para a recuperação. Cocino explica que familiares e cuidadores costumam ajudar mais quando oferecem acolhimento, escuta e compreensão, sem assumir uma postura de fiscalização.
Em vez de controlar cada refeição ou cobrar resultados rápidos, ela defende que a família participe do processo respeitando o ritmo de recuperação do paciente, valorizando pequenas conquistas e evitando isolá-lo ou reduzi-lo à condição de “doente da família”.
Outro desafio está no ambiente digital. Além das comparações constantes e o culto à magreza, há sub comunidades da internet que fomentam práticas danosas. É o caso da Eating Disord Twitter (Edtwt), por exemplo, que reúne usuários com transtornos alimentares para, mutualmente, se incentivarem a manterem dietas rígidas e comportamentos prejudiciais.
A psiquiatra Ana Clara Floresi frisa que “são espaços perigosos e a serem evitados”, e recomenda que o acompanhamento do que os jovens consomem nas redes sociais é indispensável por parte da família.
Apesar das dificuldades, as especialistas reforçam que a recuperação é possível, sobretudo quando o tratamento é iniciado precocemente. Carla ainda enfrenta desafios relacionados à compulsão alimentar, mas diz que hoje enxerga a situação de forma diferente daquela vivida na adolescência.
“Por mais que eu esteja tratando, é algo que é muito enraizado na minha vida. Mas atualmente eu tenho uma maturidade maior em relação a isso, para entender que está tudo bem e que eu estou sendo ajudada“, conclui.

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