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Ruído entre PT e PSB às vésperas da eleição envolve João Campos, Lula e Raquel Lyra

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A corrida eleitoral em Pernambuco voltou a ter o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como personagens centrais da disputa entre a governadora Raquel Lyra (PSD) e o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB).

Desta vez, o tema que mobilizou os bastidores políticos foi a possibilidade de um eventual palanque duplo para Lula no Estado, hipótese levantada pelo ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, coordenador da campanha do presidente no Nordeste, em entrevista ao jornal O Globo publicada no último domingo (7).

A declaração provocou reação imediata de dirigentes petistas e socialistas, levando o presidente nacional do PT, Edinho Silva, a desautorizar publicamente o ministro e expôs uma discussão sensível para 2026: até onde Lula poderá se aproximar de Raquel Lyra sem gerar atritos com João Campos e o PSB?

O episódio transpassa as fronteiras pernambucanas, já que não envolve apenas a disputa pelo Governo do Estado, mas mexe também em uma das principais alianças da campanha presidencial e um elo que já se repetiu outras vezes na história, entre Lula, PT e PSB.

Além de pré-candidato ao governo, João Campos também preside nacionalmente o PSB, responsável pelas articulações da legenda a nível nacional, tendo realizado discussões frequentes com Lula e Edinho Silva sobre os palanques conjuntos de socialistas e petistas em diferentes estados, incluindo Pernambuco.

Outro ponto importante da aliança entre PSB e PT está na vice-presidência, ocupada por Geraldo Alckmin desde as eleições de 2022. Agora na presidência nacional da legenda socialista, João Campos participou ativamente da articulação que garantiu Alckmin na chapa para 2026.

Por isso, a possibilidade de um eventual apoio dividido de Lula em Pernambuco foi recebida com desconforto por setores do PSB. Em março, o PT pernambucano já tinha formalizado apoio à candidatura de João Campos em um ato político que reuniu dirigentes nacionais, militância e lideranças da Frente Popular.

A fala que provocou o ruído

Na entrevista ao O Globo, Wellington Dias afirmou que Pernambuco, Maranhão e Paraíba seriam estados onde Lula poderia contar com mais de um palanque.

Quando questionado especificamente sobre Pernambuco, o ministro foi direto.

“Sim. Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra”, afirmou.

“Vamos lembrar que ela se colocou primeiro como oposição e no segundo turno teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do nosso time ficou com ela”, acrescentou.

A declaração surpreendeu aliados de João Campos e integrantes do PT pernambucano. Desde março, quando o diretório estadual petista oficializou apoio à pré-candidatura do socialista ao governo, a construção política tem sido apresentada como parte de uma aliança nacional entre PT e PSB, com participação direta da direção nacional e do próprio presidente Lula.

O tema ganhou novos contornos nesta segunda-feira (8), quando o presidente nacional do PT, Edinho Silva, desautorizou publicamente a declaração de Wellington Dias. Também ao Globo, Edinho afirmou que não existe discussão sobre palanque duplo em Pernambuco.

“Essa posição está clara desde o início, em Pernambuco o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos. O PSB é o maior aliado do PT no Brasil todo. Esse ruído é desnecessário”, declarou.

Segundo a reportagem, a reação ocorreu após dirigentes do PSB demonstrarem incômodo com a declaração do ministro e o próprio João Campos procurar Edinho Silva para cobrar explicações.

Nos bastidores, lideranças socialistas avaliam que um eventual apoio dividido de Lula em Pernambuco teria repercussões que ultrapassariam a disputa estadual e poderiam gerar ruídos em negociações nacionais entre PT e PSB.

PT de Pernambuco reforça apoio exclusivo a João

Ao Jornal do Commercio, o presidente estadual do PT, deputado federal Carlos Veras, afirmou que a posição do partido em Pernambuco segue exatamente a orientação construída pela direção nacional.

Segundo ele, não houve qualquer debate interno sobre palanque duplo durante as discussões que antecederam a formalização da aliança com o PSB.

“O que nós construímos aqui foi em sintonia com o presidente Lula e com o presidente Edinho, que coordena a campanha de Lula. Aqui nós temos um palanque, um time montado”, afirmou Veras, em contato com o JC.

O dirigente ressaltou que a decisão não foi tomada apenas pela direção estadual, mas construída conjuntamente com a cúpula nacional do partido.

“Foi algo construído com o presidente Edinho e com o presidente Lula”, disse.

Veras também destacou que a composição em Pernambuco acompanha uma estratégia nacional consolidada entre PT e PSB. 

“Como a gente ia discutir algo aqui se nacionalmente estavam sendo construídas alianças com o PSB em todo o país? Não foi com o PSD que foi construído, foi com o PSB”, afirmou.

“A decisão de Pernambuco jamais seria uma decisão dessintonizada com a orientação e a decisão nacional. Repito: a decisão de Pernambuco seguiu a decisão nacional, porque nós somos um partido nacional.”

O presidente estadual do PT também destacou que o partido da governadora Raquel Lyra, o PSD, já tem o seu pré-candidato para presidente: o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado. De acordo com Veras, 

“A governadora vai disputar a sua reeleição por um partido que tem candidato a presidente da república, o PSD. […] Os ministros que ele (Wellington Dias) está falando, deve estar falando dos ministros do PSD que estão na base do governo ainda. Mesmo com o PSD com candidato a Presidente da República, o partido continua no governo, inclusive com mais de um ministro”, afirmou.

Em nota divulgada após a repercussão do caso, a direção estadual reforçou o posicionamento.

“Como já decidido pelo PT de Pernambuco e já alinhado com o PT-Nacional, a campanha do presidente Lula à reeleição só terá um palanque aqui em nosso estado, formado com o PSB e comandado pelo presidente da sigla, ex-prefeito do Recife e pré-candidato a governador de Pernambuco, João Campos”, afirmou o partido.

Disputa mais acirrada ajuda a explicar debate

Embora o episódio tenha sido rapidamente encerrado pela direção nacional do PT, a repercussão da fala de Wellington Dias evidenciou uma discussão que persiste nos bastidores da sucessão estadual.

Para o cientista político Antônio Lucena, o tema voltou a ganhar relevância porque o cenário eleitoral mudou nos últimos meses.

Segundo ele, quando João Campos aparecia com vantagem confortável nas pesquisas, a associação entre Lula e o palanque socialista era um movimento mais simples. O avanço recente de Raquel Lyra, porém, tornou a equação mais delicada para setores do campo governista.

“Antes, a posição em torno de João era mais confortável para Lula, porque estava dando um indicativo de que ele estava à frente. Mas agora, com as novas pesquisas saindo e mostrando que há uma indefinição entre Raquel e João, fica realmente mais complicado fazer esses movimentos”, avaliou.

Na visão do especialista, a situação pernambucana possui uma característica particular: a elevada aprovação de Lula no Estado e a ausência, até o momento, de uma candidatura bolsonarista competitiva ao governo.

“Lula é bem avaliado no Estado de Pernambuco. Já o bolsonarismo enfrenta mais dificuldades. Então esse movimento em torno do presidente não é de se espantar tanto de um lado como de outro”, afirmou.

Lucena avalia que esse cenário faz com que tanto João Campos quanto Raquel Lyra tenham interesse em manter proximidade política com o presidente, ainda que ocupem campos distintos na disputa estadual.

“Como a gente não tem um candidato bolsonarista forte dentro do Estado, então não acho que é um grande problema”, observou.

Ao mesmo tempo, ele pondera que um eventual apoio dividido teria reflexos sobre a composição das chapas majoritárias, especialmente nas disputas para o Senado.

“O palanque duplo gera problemas com indicados ao Senado e outras figuras que estão preocupadas com essa composição. Mas isso não altera tanto o quadro principal porque a polarização entre Raquel e João já está muito consolidada”, afirmou.

Raquel evita entrar na disputa

A repercussão da fala de Wellington Dias também alcançou a governadora Raquel Lyra. Horas antes de Edinho Silva descartar a possibilidade de palanque duplo, a governadora foi questionada sobre a relação com Lula e evitou antecipar qualquer definição para a eleição de 2026.

“Como muitas vezes se divulgava que era impossível que eu e o governo do Estado pudéssemos estabelecer uma relação sólida com o governo federal, com o presidente e com seus ministros… Existe confiança de ambos os lados e a gente tem trabalhado muito para fazer entregas ao povo de Pernambuco”, afirmou.

A declaração foi dada durante a entrega de 40 ônibus para o transporte público da Região Metropolitana do Recife financiados com recursos do Novo PAC, medida do governo federal.

Sem comentar diretamente a possibilidade de um eventual apoio eleitoral de Lula, Raquel destacou a relação institucional construída com o governo federal desde o início de sua gestão.

Debate continua nos bastidores

A intervenção de Edinho Silva encerrou oficialmente o ruído, mas não eliminou a discussão política que a fala de Wellington Dias revelou.

Setores do governo federal e quadros do PT já defenderam em outros momentos a manutenção de canais abertos com Raquel Lyra, especialmente diante da importância estratégica de Pernambuco para a campanha presidencial de 2026.

Por outro lado, o PSB trata a disputa estadual como uma das prioridades nacionais da legenda e considera essencial preservar a vinculação entre João Campos e o presidente da República. João, inclusive, já teve o nome discutido por vezes como um eventual sucessor de Lula no futuro.

A rápida atuação da direção nacional petista evitou que o episódio evoluísse para uma crise aberta entre PT e PSB. Ainda assim, a sequência de declarações deixou evidente que, a pouco mais de um ano da eleição, o apoio de Lula permanece como um dos ativos políticos mais disputados da sucessão pernambucana.

Se oficialmente o PT reafirma que o palanque do presidente em Pernambuco é o de João Campos, a repercussão da fala de Wellington Dias mostrou que o tema continua mobilizando atenções tanto em Pernambuco quanto em Brasília.

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