A governadora tentará ser aceitável para lulistas e bolsonaristas enquanto João trabalha para nacionalizar a eleição estadual em Pernambuco
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Raquel Lyra (PSD) precisa ser a alternativa mais aceitável para o antipetismo sem se transformar numa candidata antilulista. Precisa do voto bolsonarista e, ao mesmo tempo, precisa continuar sendo uma escolha para os eleitores de Lula, que deram ao campo petista cerca de dois terços dos votos válidos de Pernambuco nas duas últimas eleições presidenciais.
João Campos (PSB) terá que conduzir seu paradoxo, de ser o prefeito do Recife sem ser mais o prefeito do Recife, como explicamos na coluna Cena Política do último sábado (07), mas Raquel também tem suas conduções para fazer dentro de uma situação que parece contraditória, embora não seja.
A governadora tentando a reeleição não pretende unir os polos ideológicos nacionais em Pernambuco. Nem poderia. Sua estratégia será impedir, na verdade, que qualquer um deles, de qualquer lado, ideologia ou preferência partidária, encontre motivos suficientes para rejeitá-la.
Maioria
O dado histórico ajuda a dimensionar o paradoxo. Fernando Haddad recebeu 66,5% dos votos válidos dos pernambucanos no segundo turno de 2018. Quatro anos depois, Lula alcançou 66,93% contra Jair Bolsonaro. Não significa que dois terços do eleitorado sejam filiados, militantes ou incondicionalmente petistas. Demonstra, contudo, a existência de uma maioria presidencial lulista estável no Estado.
Raquel não pode entrar em conflito com esse eleitorado. Transformar Lula em inimigo significaria assumir uma posição nacional e, simultaneamente, confrontar uma preferência profundamente consolidada em Pernambuco.
Por isso, as referências ao apoio recebido de Lula desde 2022, a gratidão constante manifestada ao presidente e a manutenção da relação administrativa com o Governo Federal possuem uma função eleitoral concreta. Elas oferecem ao lulista uma justificativa para votar em Raquel sem sentir que está aderindo ao campo adversário.
Aristóteles formulou três pilares da persuasão divididos em elementos relacionados à credibilidade, à emoção e à razão que são muito usados em eleições. Raquel precisa, com credibilidade, acionar a razão dos eleitores sem entrar em atrito com a emoção deles.
Alternativa
No outro lado, o antipetismo também precisa encontrar um caminho até a candidatura da governadora. João Campos reúne o apoio formal do PT, preside o PSB e tenta transformar a proximidade com Lula numa das principais forças de sua campanha. Para quem rejeita o presidente e seu partido, Raquel tende a ser a única alternativa competitiva na disputa estadual.
Ela precisa receber esses votos sem assumir a identidade ideológica de quem os oferece. O eleitor de Flávio Bolsonaro não exige necessariamente que todos os seus candidatos estaduais sejam bolsonaristas. Pode escolher Raquel por oposição a João, pela avaliação do governo ou pela ausência de uma candidatura própria da direita ao Palácio do Campo das Princesas.
O erro seria imaginar que, para conquistar esse eleitor, a governadora precisa repetir os símbolos, a linguagem e os conflitos nacionais do bolsonarismo. Raquel precisa ser votável para o bolsonarista, mas não precisa virar bolsonarista para receber seu voto.
Combinações
O cenário ideal para sua campanha permite três escolhas diferentes. Lula para presidente e Raquel para governadora. Flávio para presidente e Raquel para governadora. Um terceiro candidato ao Planalto e Raquel para governadora.
A governadora não precisa ser a candidata presidencial dos dois lados. Precisa separar a decisão estadual da nacional e impedir que o voto para presidente determine automaticamente a escolha para o Governo de Pernambuco. Quanto mais conseguir evitar a nacionalização, melhor para ela.
Essa é a disputa estratégica com João. O socialista tentará apresentar uma linha direta entre Lula, o PT e sua candidatura. Raquel precisa interrompê-la, convencendo o eleitor de que apoiar o presidente nacionalmente não obriga ninguém a votar no candidato do PSB para governador.
Ao mesmo tempo, a direita tentará estabelecer sua própria sequência entre Flávio Bolsonaro, seus candidatos ao Senado e a eleição estadual. Raquel também não pode permitir que esse percurso imponha uma identidade bolsonarista à sua campanha.
Ponte
Mendonça Filho (PL) pode funcionar como ligação entre Raquel e parte do eleitorado antipetista. Sua oposição histórica ao PT e o apoio à reeleição da governadora oferecem ao conservador uma combinação eleitoral possível.
Mas Raquel estabeleceu publicamente uma distância ao afirmar que Mendonça não é o candidato de sua chapa. Ela aceita o apoio sem entregar a ele o endereço político da campanha. Pode receber os votos aproximados por Mendonça, mas procura preservar a relação com Lula e com os eleitores lulistas.
A operação contém riscos evidentes. O bolsonarista pode considerar Raquel próxima demais do presidente. O lulista pode enxergá-la como candidata sustentada pela direita. Se tentar agradar ostensivamente aos dois campos, ela poderá parecer oportunista para ambos. A linha é tênue.
Sua estratégia não é ser amada pelos dois polos. É reduzir a rejeição nos dois.
Escolha
A nacionalização interessa a João porque o aproxima da preferência presidencial majoritária em Pernambuco. A estadualização interessa a Raquel porque permite receber votos lulistas, bolsonaristas e independentes. Por enquanto a governadora consegue evitar problemas com discurso. Mas a tendência é que fique mais complicado.
Quando a campanha presidencial endurecer, essa separação pode ficar mais difícil. Os aliados cobrarão declarações, as propagandas buscarão estabelecer antagonismos e cada campo tentará demonstrar que a eleição estadual é uma continuação da disputa pelo Planalto. O segredo para ela é não entrar no jogo em hipótese alguma. A campanha curta ajuda, mas a pressão vai ser grande.

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