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Quando escola e família trabalham juntas, quem ganha é a criança!

Durante décadas, bastava à escola ensinar e à família acompanhar. Hoje, essa fronteira praticamente desapareceu

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Vivemos um tempo em que muitos debates sobre educação começam pela pergunta errada. Discutimos de quem é a responsabilidade de ensinar, de corrigir, de impor limites ou de formar valores. Como se fosse possível dividir aquilo que sempre foi uma construção compartilhada. Acreditamos que a pergunta que precisamos fazer é: que criança queremos formar? E a resposta começa pela colaboração entre escola e família, trabalhando juntas, deixando de disputar responsabilidades e passando a compartilhar um propósito.

Durante décadas, bastava à escola ensinar e à família acompanhar. Hoje, essa fronteira praticamente desapareceu. As crianças passam parte importante de suas vidas na escola. Grande parte da infância acontece dentro dela. Esse fato, por si só, amplia a responsabilidade das instituições de ensino.

Quanto mais tempo a criança permanece na escola, maior deve ser o compromisso com sua formação integral. Isso significa muito mais do que transmitir conteúdos. Significa criar experiências que despertem a curiosidade, desenvolvam o pensamento crítico, fortaleçam a autonomia, estimulem a criatividade e ensinem a conviver. Significa preservar o brincar, a arte, a natureza, a leitura, o movimento e as relações humanas, elementos que continuam sendo essenciais para o desenvolvimento pleno.

Mas reconhecer o papel ampliado da escola não reduz, em absolutamente nada, a importância da família. Pelo contrário. É em casa que a criança aprende, todos os dias, aquilo que nenhum currículo consegue ensinar sozinho. Aprende observando como os adultos conversam, escutam, resolvem conflitos, cumprem a palavra, demonstram respeito, lidam com as frustrações e demonstram interesse genuíno pelo outro. Antes de ser ensinada, a educação é vivida. Existe, porém, um ingrediente que raramente ocupa espaço nas discussões sobre educação e possivelmente, seja o mais decisivo de todos: a confiança.

A escola tem um papel decisivo na formação humana, mas é preciso que a família também cumpra o seu papel de educar, de acompanhar a vida escolar de seus filhos. Mas acompanhar não significa vigiar permanentemente. Significa participar, perguntar, dialogar e acreditar no trabalho daqueles a quem se confiou parte da formação dos filhos. Da mesma forma, cabe à escola cultivar transparência, escuta e abertura para construir uma relação sólida com as famílias.

Hoje sabemos, graças aos avanços da neurociência, que o cérebro não aprende isoladamente. Ele aprende nas relações. A qualidade dos vínculos influencia a curiosidade, a coragem para errar, a persistência diante dos desafios e a capacidade de construir conhecimento. Quando família e escola compartilham expectativas, valores e objetivos, oferecem à criança a segurança emocional necessária para explorar, perguntar, experimentar e crescer.

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja imaginar que educar consiste apenas em oferecer informação. Informação nunca esteve tão disponível. O verdadeiro desafio continua sendo transformar informação em conhecimento, conhecimento em discernimento e discernimento em escolhas responsáveis. Esse percurso nasce das relações.

No fim das contas, o verdadeiro resultado da parceria entre família e escola não é apenas uma criança que aprende mais. É uma criança que pergunta antes de responder, que pensa antes de concluir, que coopera, que cuida, que persevera e que encontra sentido no que aprende. Uma criança que continuará aprendendo muito depois de terminar a escola. Talvez seja exatamente esse o maior propósito da educação. Escola é sobre desenvolvimento, e desenvolvimento só acontece quando família e escola escolhem caminhar juntas.

Mozart Neves Ramos, titular da cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP, e Gabriela Camarotti, especialista em neurociência aplicada à educação e diretora da Escola Vila Aprendiz

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