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Plano de Segurança Viária do Recife é lançado discretamente e meta de 50% de redução é criticada por falta de ousadia, além de atrasos

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O Recife lançou discretamente no fim de maio o seu primeiro Programa de Segurança Viária (PSV), que na prática significa que o município está e vai, cada vez mais, atuar para reduzir a violência no trânsito. Embora não tenha recebido divulgação da prefeitura – foi apenas disponibilizado no site oficial -, a atual gestão da capital pernambucana se auto impôs a meta de reduzir em 50% as mortes e ferimentos no trânsito em uma década.

Ou seja, até dezembro de 2036, o Recife terá que estar contabilizando menos de 100 mortes no trânsito por ano. Isso significaria reduzir de 140 mortes registradas em 2025 para, no máximo, 70 por ano. E passar de quase 6 mil atendimentos de vítimas feridas pelo SAMU para 3 mil anuais. As ações, políticas e decisões para que a cidade alcance essa redução está, pelo menos na teoria, no documento Programa de Segurança Viária do Recife (PSVR) 2026–2036. 

O plano se sustenta em quatro eixos centrais: vigilância de dados para análise de sinistros; fiscalização e operações voltadas à mudança de comportamento; comunicação e educação; e o projeto de “Ruas Seguras”, que foca no redesenho urbano e na proteção de grupos vulneráveis, como o entorno de escolas, seguindo diretrizes internacionais.O PSVR é uma iniciativa estratégica integrada à Política Municipal de Mobilidade Urbana, desenvolvida em parceria com a Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global e fundamentada na Lei Municipal nº 18.887/2021.

Está estruturado em 12 iniciativas, 43 ações e 46 indicadores. A gestão municipal estima que a execução do programa possa evitar aproximadamente 350 mortes e poupar mais de 22 mil pessoas de sofrerem lesões em uma década. Além do benefício humanitário, o plano projeta que a redução dos sinistros representa uma economia projetada de R$ 1,6 bilhão em custos socioeconômicos acumulados, incluindo despesas com saúde pública, reabilitação e perda de produtividade.

REPERCUSSÃO NEGATIVA DIANTE DE METAS FLEXÍVEIS



Cicloativistas denunciam descumprimento de prazos legais e foco excessivo no comportamento do usuário em detrimento da engenharia e desenho urbano – Cortesia

Embora esteja alinhado com as diretrizes do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS), o plano é alvo de críticas por ser considerado pouco ambicioso frente à gravidade do cenário local de mortes. Com a projeção de alcançar apenas em 2036 a redução proposta, a gestão municipal é questionada por adotar uma “Visão 50%” em vez de um compromisso real com a “Visão Zero” de mortes no trânsito, já praticada e projetada mundialmente.

No setor de segurança viária, a meta de 50% em dez anos é avaliada como cômoda e flexível, opção da gestão municipal por saber que o desafio é enorme na cidade, especialmente com a explosão do número de mortes de ocupantes de motocicletas. Crescimento provocado – principalmente – pela falta de regras e fiscalização do serviço de transporte remunerado de passageiros como motos, como o Uber e 99 Moto.
É como se o Recife, para evitar medidas impopulares – como a maioria das ações que preservam a segurança viária ainda é vista no Brasil -, ampliasse as metas para evitar trabalho e problemas políticos.

A urgência de medidas mais severas é evidenciada pelos dados críticos envolvendo ocupantes de motos (condutores e passageiros), que se tornaram o centro do desafio de segurança viária na capital pernambucana. 

Plano de Seguranca Viaria do Recife (PSVR) 2026-2036 by Roberta Soares

Em 2025, os ocupantes de motocicletas — incluindo condutores e um número crescente de passageiros — já representavam aproximadamente 50% das 140 mortes registradas na cidade. Entre 2021 e 2025, os óbitos nesse grupo saltaram de 24 para 72 vítimas anuais, um aumento de 200% que sobrecarrega o sistema de saúde, com o SAMU atendendo, em média, 12 vítimas de moto por dia.

ATRASOS HISTÓRICOS E A DILUIÇÃO DAS METAS NO TEMPO

Circulação de motos nas rodovias aumenta o risco de quedas e colisões. Atlas da Violência 2026 apontou maior índice de mortes no trânsito desde 2016 – Gabriel Ferreira/JC Imagem

Imagens fortes de violentas colisões no trânsito. Veja e reflita sobre a importância de uma condução segura de veículos – Severino Soares/JC

Imagens fortes de violentas colisões no trânsito. Veja e reflita sobre a importância de uma condução segura de veículos – Severino Soares/JC

O cicloativista Daniel Valença, da Ameciclo (Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife), contextualiza que o plano chega com um atraso de quatro anos em relação ao que determina a Lei Municipal Nº 18.887/2021. Segundo Valença, os cadernos de regulamentação da política de mobilidade, incluindo o de segurança viária, deveriam ter sido entregues em até um ano após a aprovação da lei, mas a prefeitura esticou os prazos sistematicamente até 2026.

“Essa demora é vista como uma forma de a política se arrastar sem ser cumprida, custando vidas que poderiam ter sido poupadas se os manuais estivessem em vigor desde 2022”, alerta. Além do atraso na entrega, a Ameciclo denuncia que houve uma diluição da meta temporal que torna o plano menos rigoroso. Inicialmente discutido para o período de 2024-2030, o horizonte foi ampliado para 2036.

Valença critica essa falta de ousadia, apontando que o planejamento prevê que o Recife terá, em 2029, um trânsito apenas tão seguro quanto o que já existia em 2018. Para o ativista, o novo cronograma ignora a capacidade da cidade de bater metas mais rápidas, como ocorreu em Fortaleza, e acaba por criar uma “nova década da ONU” particular para a capital pernambucana.

PROVAR O QUE JÁ É FATO E TRANSFERÊNCIA DE CULPA PARA O CIDADÃO

 



Segurança viária: Recife assume o compromisso de reduzir 50% das mortes no trânsito nos próximos dez anos. Arte produzida por IA cm dados apurados pela reportagem – Arte

Outro ponto de forte crítica recai sobre a insistência da Prefeitura do Recife em realizar “projetos piloto” para medidas cuja eficácia já é comprovada mundialmente, como a redução da velocidade máxima para 50 km/h – inclusive na iminência de virar lei no País.  “Soa ridículo que a prefeitura ainda pretenda testar a readequação de velocidade em avenidas específicas quando já existem estudos, inclusive da Ameciclo, demonstrando os benefícios imediatos dessa intervenção. O plano também prevê novos estudos para justificar o religamento de radares e lombadas eletrônicas durante a madrugada, algo que já é objeto de processo judicial contra a gestão municipal”, afirma. 

A abordagem do programa é questionada por, na prática, ainda focar excessivamente no comportamento individual do usuário como principal causa dos sinistros. Apesar de citar a abordagem do Sistema Seguro, as campanhas de comunicação da prefeitura são criticadas por dizer ao cidadão para “ficar quieto” ou “melhorar”, em vez de focar na responsabilidade de gestão sobre a engenharia e o desenho das ruas.

“A verdadeira educação no trânsito deveria vir através da geometria das vias, da fiscalização rigorosa e da priorização do transporte público para remover as pessoas da exposição ao risco das motos”, segue alertando Daniel Valença.

AUSÊNCIA DE ESTRATÉGIA FOCADA NA GEOGRAFIA DOS SINISTROS DE TRÂNSITO



Segundo dados da SES-PE, sete ciclistas são atropelados diariamente em 2026. Cicloativistas denunciam descumprimento de prazos legais e foco excessivo no comportamento do usuário em detrimento da engenharia e desenho urbano – Divulgação

A falta de foco geográfico estratégico também é apontada como uma falha, já que metade dos sinistros com vítimas ocorre em apenas 300 km de vias do Recife, o que representa aproximadamente 100 ruas da capital. Vias conhecidas como a Avenida Agamenon Magalhães, a Avenida Norte e a Avenida Caxangá concentram grande parte da matança, mas o plano não detalha metas específicas de implantação imediata para esses corredores críticos. Sem prazos claros para a execução de cada ação, o receio da sociedade civil é que as intervenções fiquem para o último dia e nunca saiam do papel.

Por fim, a meta de evitar R$ 1,6 bilhão em custos socioeconômicos até 2036 é vista como um potencial desperdiçado pela lentidão das ações propostas. “Se a prefeitura atacasse diretamente as dez vias que concentram 25% dos sinistros, os resultados poderiam ser muito mais rápidos e expressivos”, destaca Daniel Valença.

Como o plano carece de um cronograma de execução física e se limita a indicadores de monitoramento anual, ele acaba sendo visto mais como uma carta de intenções do que como uma ferramenta eficaz para estancar a atual crise de segurança viária da capital.

É importante destacar que, ao tomar conhecimento da divulgação do PSVR, o JC tentou conversar com a gestão municipal. Mas como tem sido praxe na Prefeitura do Recife, especialmente nos temas da mobilidade urbana, o pedido foi ignorado e apenas informado o site para avaliação do programa.

Fonte: Clique aqui

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