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Perdeu, Mané

O senador Flávio Bolsonaro, candidato de oposição a presidente da República, depois de uma derrota por mais de quatro milhões de votos, fugiu do Brasil de forma covarde e inesperada, surpreendendo, inclusive, o seu partido, coordenadores de sua campanha e os eleitores que lhe confiaram o voto. O senador carioca fez valer os ensinamentos do humorista carioca Millôr Fernandes, lembrando sempre que “de onde menos se espera é que não sai nada, mesmo”.

Flávio Bolsonaro, cujo perfil traçado por sua madrasta, Michelle, num longo depoimento à revista Piauí, não é uma pessoa confiável, não costuma ser solidário e outras coisas mais, revelou-se também um medroso: foi temendo enfrentar a Justiça por acusações de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro que, com a ajuda de Javier Milei, presidente da Argentina, e de funcionários de alto escalão do governo de Donald Trump, o Zero Um deixou o Brasil. Bom lembrar que tanto o argentino quanto os irmãos Bolsonaro – Flávio e Eduardo – sentem prazer quando lambem as botas do presidente norte-americano, cuja popularidade em seu país derrete a cada dia, como manteiga na areia quente.

Talvez para surpresa de Flávio, nenhuma das lideranças do seu partido e daqueles bolsões da direita que, à falta de um nome mais palatável, o apoiaram na campanha, a começar pelo presidente Waldemar Costa Neto e outros líderes de expressão como o governador Tarcísio de Freitas, colocou em dúvida o resultado das eleições, que por mais de 4 milhões de votos reelegeram Luiz Inácio Lula da Silva. O próprio presidente do Superior Tribunal Eleitoral, ministro Nunes Marques, ligado e indicado ao cargo pelo então presidente Jair Bolsonaro, pai do senador, foi claro e cirúrgico em relação ao pleito: as eleições ocorreram de forma limpa e democrática, sem qualquer intervenção alheia, refletindo nos votos a vontade e a escolha do povo. Flávio Bolsonaro, que sempre foi um político medíocre, revelou-se também um mau perdedor.

Questionou a prorrogação dada pela Justiça para que alguns eleitores, impedidos pelo mau tempo ou falta de transporte, pudessem votar. Se todos esses eleitores que votaram nesse tempo estendido tivessem escolhido Flávio para presidente, mesmo assim ele perderia a eleição por mais de quatro milhões de votos. Como se vê, o senador Zero Um é um mau perdedor.

Na verdade, passados o calor e as incertezas de uma eleição profundamente radicalizada, onde os grupos de esquerda e da direita não conseguem dialogar, o maior desafio político para o presidente Lula será buscar a pacificação do país. Ele vai tomar posse com um Congresso de oposição – e com desafios que só serão superados com diálogo entre os Poderes. Vale lembrar o triste episódio visto pelos brasileiros tendo como palco o Supremo Tribunal Federal. Ali, alguns ministros jogaram para o ar o simbolismo da toga e trocaram insultos como só se via antigamente, em peladas de futebol nos bairros da periferia, quando ainda havia periferia e se jogava pelada.

No Poder Legislativo, a oposição domina a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Nada será aprovado sem negociação. E mostra a história política da República que não existe almoço de graça. O presidente Lula terá muitos desafios neste seu quarto e último mandato. Há também a certeza de que uma fase da política brasileira está chegando ao fim. O PT é hoje um partido menor e que parece encolher a cada ano; grupos de direita criaram e fortaleceram novos partidos que hoje brilham no céu político; os “centristas” são poucos e imprevisíveis.

É com essa realidade que Lula vai se debater. E que deixa em suspense o futuro da sociedade brasileira, temerosa de imprevistos maiores, que vão desde a explosão das contas públicas ao equilíbrio da Previdência, da inflação sem controle ao mau desempenho das estatais, pois ela não suporta mais bancar os milhões de prejuízos mensais provocados por instituições como os Correios, em que pese sua história e seu passado. Com relação a Flávio Bolsonaro? É melhor esquecer.

Ivanildo Sampaio é jornalista

A derrota de Flávio Bolsonaro, sua saída do Brasil e os desafios políticos de Lula diante de um Congresso de oposição.

 
 
 

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