Presença de chefes de Estado e seus discursos para públicos tão diversos revelam a função derradeira de uma entidade em busca de relevância
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Sem se fazer escutar ou ter êxito prático ao longo de décadas de determinações não cumpridas por vários países, sobretudo as potências militares, a Organização das Nações Unidas (ONU) chega a mais um ponto de renovação, com o último discurso do atual secretário-geral, António Guterrez, na assembleia geral desta semana em Nova York. Com palavras duras e até melancólicas, Guterrez exprimiu a frustração de anos falando para ouvidos que não lhe deram a menor importância. A decadência inegável da ONU é visível no primeiro quarto do século 21, mas seus encontros de cúpula, ao menos, mantêm conservada a função de palco para líderes nacionais e temais inescapavelmente globais, ainda que seja um palco, na maior parte das vezes, para egos hiperinflados e posições dissonantes a milhares de quilômetros de um consenso que se traduza em ações concretas.
Em uma síntese da desimportância dos clamores pelos direitos humanos em invasões e guerras patrocinadas por nações integrantes da ONU, o secretário-geral recordou que “civis foram alvos. Direitos humanos, atropelados. A fome, usada como arma. Trabalhadores humanitários, mortos. O direito internacional, deixado de lado. As divisões geopolíticas se aprofundaram. As desigualdades se intensificaram. A confiança se desgastou. A crise climática deixou de ser um alerta distante para se tornar uma realidade cotidiana. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que surpreendeu até mesmo aqueles que a criaram”. Ou seja, nada daquilo que foi mencionado em seus muitos discursos no posto chegou a ser considerado como anteparo efetivo de proteção humana.
António Guterrez aponta a reconfiguração do poder no mundo como fator de dificuldade para a intervenção da entidade formada pela maioria da humanidade, na representação dos países membros, numa época em que a realidade traz marcas de corporações globais e de tecnologias que ameaçam os instrumentos de ação coletiva. “Nossas instituições e sistemas de governança global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma era em grande parte superada. Esse é o desafio decisivo que temos pela frente”, reconhece, lembrando ainda a Inteligência Artificial no horizonte das ameaças.
Na multipolaridade deste século, as tensões e desconfianças aumentam. Uma instituição voltada para desbastar as tensões e reduzir as desconfianças deveria ter o papel valorizado, e não, menosprezado. Para que a ordem em rede proposta por Guterrez ganhe forma colaborativa e interdependente, o estabelecimento de regras válidas para todos, bem como limites para todos, precisa acontecer. Difícil acreditar em tal possibilidade, quando o presidente de uma das maiores potências do planeta aproveita o seu momento de foco no palco para contrariar a entidade criada para a defesa da paz, e dizer que vai destruir completamente um país que não seguir sua determinação. Não que a fala de Donald Trump contra o Irã surpreenda. Mas entristece ver o distanciamento cada vez maior entre o idealismo da diplomacia e o pragmatismo das lideranças, a cada encontro da ONU.

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