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O Super El Niño chegou ao Sul. O que Santa Catarina pode esperar

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O El Niño chegou ao Sul e setembro marca o início da intensificação: mais chuvas, temperaturas acima da média e risco elevado de enchentes, enxurradas e deslizamentos. O fenômeno pode ser o mais intenso desde 1950 e dura até o outono de 2027. Vale do Itajaí, Serra e Litoral Norte em alertaFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Se você percebeu que julho em Santa Catarina foi mais chuvoso do que o usual — percebeu certo. O inverno, normalmente a estação mais seca do ano no estado, registrou volumes de chuva acima do esperado em 2026. A razão não é coincidência. É o El Niño chegando — e ainda não mostrou seu pico.

A Defesa Civil de Santa Catarina, em conjunto com a Epagri/Ciram e as instituições que integram o Fórum Climático Catarinense, confirmou em julho que o fenômeno deve ganhar força ao longo dos próximos meses, atingindo seu pico entre a primavera e o verão, e se estendendo até pelo menos o outono de 2027.

A NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, projeta 96% de probabilidade de que o El Niño se mantenha entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.

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Caso as previsões se confirmem, o evento deverá se consolidar entre os mais intensos observados desde 1950 — comparável, segundo o Greenpeace Brasil, ao El Niño de 1877, que desencadeou uma das maiores catástrofes humanitárias do século XIX.

O que os modelos dizem especificamente para Santa Catarina

A palavra mais importante que a Defesa Civil usou ao descrever o que vem a partir de setembro é “intensificam”.

As projeções para os próximos três meses são específicas: temperaturas acima da média e aumento das chuvas, elevando o risco de alagamentos, inundações e deslizamentos em diferentes regiões catarinenses. Além das chuvas, há expectativa de episódios de vento intenso.

O que não está confirmado é a intensidade exata. O que há, no entanto, é um consenso entre os modelos: Santa Catarina deverá registrar chuva acima da média em 2026 e nos primeiros meses de 2027. A variável é o quanto acima da média — e em quais momentos pontuais os eventos mais extremos ocorrerão.

O que o Rio Grande do Sul de 2024 nos ensinou

Há um precedente recente que nenhum catarinense deveria ignorar.

No episódio de El Niño anterior, os impactos mais severos em Santa Catarina se manifestaram no segundo semestre de 2023, com chuvas intensas que atingiram todo o estado.

A situação parecia controlada. E então, em maio de 2024, o Rio Grande do Sul sofreu a maior catástrofe climática da sua história — enchentes que mataram mais de 150 pessoas, destruíram cidades inteiras e causaram bilhões em prejuízo.

O ponto crítico é este: a janela de risco do fenômeno não se encerra com o pico oceânico e pode atingir diferentes regiões em diferentes momentos. O RS foi severamente afetado no outono de 2024 — depois que o pico do El Niño já havia passado, em condições que pareciam menos agudas do que o momento mais intenso.

A lição para SC é direta: o perigo não é apenas o mês de pico. É a janela inteira — que vai de setembro de 2026 até pelo menos o outono de 2027.

Região por região: quem corre mais risco

O El Niño não afeta todo o estado da mesma forma. Há regiões de maior vulnerabilidade — e entendê-las é o que permite a preparação.

O Vale do Itajaí é historicamente a região mais vulnerável às enchentes durante El Niño. Blumenau, Itajaí, Brusque e os municípios do Médio Vale já passaram por eventos catastróficos em 2008 e em 2011.

O vale é uma bacia de drenagem que concentra toda a água que cai nas serras acima — e quando as chuvas são intensas e prolongadas, os rios transbordam com rapidez que deixa pouco tempo para resposta.

A Serra Catarinense — Lages, São Joaquim, Urubici — enfrenta risco de deslizamentos. Encostas saturadas de chuva, especialmente em áreas com vegetação removida ou com solos argilosos, podem colapsar em eventos de chuva intensa. A Serra também abriga a maior área de produção de maçã do Brasil — diretamente ameaçada pelo excesso de umidade.

O Litoral Norte — de São Francisco do Sul a Balneário Camboriú e Itajaí — combina risco de inundação fluvial com risco de ressaca marítima e erosão costeira durante períodos de chuva intensa associada a vento sul.

O Oeste Catarinense — Chapecó, Concórdia, São Miguel do Oeste — enfrenta principalmente o risco de enxurradas rápidas e de impactos na infraestrutura rural. É a região com maior concentração de suinocultura e avicultura do estado, e deslizamentos de encosta podem interromper estradas que são vitais para o escoamento da produção.

O impacto na agricultura catarinense

Mais chuva no Sul pode parecer uma boa notícia para a agricultura — mas a realidade é mais nuançada.

Para a produção de grãos — soja, milho, trigo — volumes de chuva adequados durante os períodos críticos de desenvolvimento são positivos. Mas chuvas excessivas em momentos errados, como no período de floração ou de colheita, podem causar perdas significativas.

A maçã é a cultura mais sensível ao padrão de El Niño em Santa Catarina. O excesso de umidade durante a floração — que ocorre na primavera, justamente o período de maior risco — favorece doenças fúngicas como a sarna e o mofo cinzento.

Uma primavera muito chuvosa pode comprometer toda a safra de São Joaquim e Fraiburgo, que são os principais polos produtores do Brasil.

A uva e a produção vinícola de Santa Catarina — centrada em Urussanga, Videira e São Joaquim — enfrenta o mesmo desafio da maçã: excesso de umidade na floração e maturação cria condições ideais para o míldio e outras doenças fúngicas. Safras comprometidas por El Niño forte são historicamente as que mais impactam a viticultura catarinense.

Para suinocultura e avicultura, o impacto direto é menor — os animais estão em instalações fechadas. O risco é indireto: inundações e deslizamentos que interrompem estradas, comprometem o abastecimento de ração e dificultam o escoamento da produção para frigoríficos.

O que a Defesa Civil está fazendo

O governo de Santa Catarina assinou decreto de estado de alerta climático — não uma declaração de emergência, mas um instrumento que permite a mobilização antecipada dos órgãos estaduais para ações de prevenção, monitoramento e resposta rápida.

O estado conta atualmente com 100 estações hidrológicas e 72 estações meteorológicas distribuídas pelo território — uma das mais densas redes de monitoramento do país. A Defesa Civil mantém o monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas em conjunto com a Epagri/Ciram.

A orientação oficial é clara: acompanhar os boletins meteorológicos, as previsões e os avisos oficiais, especialmente durante os períodos com previsão de chuva intensa e temporais. A Defesa Civil pode ser acionada pelo número 199 em todo o estado.

A conexão com o mundo que cobrimos esta semana

Na terça-feira, escrevemos aqui sobre a crise do sistema alimentar global — com fertilizantes 22% mais caros pela guerra no Irã e os preços dos alimentos projetados para subir 12% em 2026. Uma das causas centrais dessa crise é o Super El Niño que está causando secas severas no sul da Ásia e na África.

Aqui está o paradoxo climático que une o mundo: o mesmo fenômeno que vai trazer mais chuvas para Santa Catarina nos próximos meses está causando seca devastadora no Nordeste brasileiro, em partes da Índia, no sudeste da África e em regiões produtoras de arroz no sudeste asiático.

El Niño é um fenômeno de redistribuição climática — não cria água nem a destrói, reorganiza onde ela cai. Para o Sul do Brasil, essa reorganização em 2026 significa excesso. Para centenas de milhões de pessoas em outros lugares, significa falta.

Isso também significa que os preços globais dos alimentos, já sob pressão pela guerra no Irã e pelos custos de fertilizantes, vão receber pressão adicional das colheitas perdidas nas regiões secas.

O que chegará ao supermercado catarinense como inflação de alimentos nos próximos meses tem uma parte de causa climática e uma parte de causa geopolítica — e as duas estão acontecendo simultaneamente.

O que o cidadão pode fazer

A Defesa Civil tem orientações práticas que valem para qualquer catarinense nos próximos meses.

Quem mora em área de risco — encosta, margem de rio, região historicamente afetada por enchentes — deve verificar o Mapa de Risco do município e entender o plano de evacuação da sua região. Muitos municípios têm sistemas de alerta por SMS — é importante cadastrar o número.

Para agricultores, o monitoramento quinzenal das previsões da Epagri/Ciram é essencial para ajustar o calendário de atividades conforme as janelas de tempo mais estável. A Epagri oferece assistência técnica específica para manejo em condições de El Niño.

Para empresas e empreendimentos em áreas de risco, a recomendação é revisar os planos de contingência antes do pico — não depois. Quando a enchente chega, não há tempo para planejamento.

O alerta climático do governo estadual existe exatamente para que essa preparação aconteça agora — em setembro, enquanto o pico ainda está à frente. Não em novembro, quando ele já começou.


Fonte: Clique aqui

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