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Flávio Bolsonaro política externa 2026

Daniella Marques cita gestão de Milei como exemplo para plano de Flávio Bolsonaro; PT reage nas redes sociais com críticas à crise na ArgentinaFoto: X/Reprodução/ND Mais

Nesta semana, analisamos as propostas dos candidatos à Presidência da República em política externa e o potencial impacto que essas propostas poderiam ter para o Brasil. São os candidatos com mais de 2% de intenção de votos, apresentados em ordem alfabética. Hoje: Flávio Bolsonaro (PL).

Flávio Nantes Bolsonaro tem 45 anos, é advogado e senador pelo Rio de Janeiro desde 2019. É o filho mais velho de Jair Bolsonaro — que cumpre pena de 27 anos e 3 meses pelo golpe de Estado de 8 de janeiro e está inelegível até 2030. Com a bênção explícita do pai e o endosso do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Flávio tornou-se o candidato natural do campo bolsonarista.

Seu vice é Alfredo Gaspar, ex-deputado federal por Alagoas pelo mesmo PL. A chapa carrega o capital político da família Bolsonaro — com todos os ativos e passivos que isso implica em política externa.

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Para entender o que Flávio Bolsonaro propõe para o Brasil no mundo, é necessário trabalhar com dois documentos diferentes: o programa oficial registrado no TSE e o discurso de campanha. Os dois não se contradizem diretamente, mas têm ênfases e silêncios distintos que contam histórias diferentes.

O que o programa do TSE diz

O programa registrado no TSE por Flávio Bolsonaro dedica um capítulo a política externa que pode ser resumido em três eixos.

O primeiro é a adesão à OCDE. O programa propõe “retomar a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico” — processo que estava em andamento durante o governo Bolsonaro e foi mantido pelo governo Lula, mas que Flávio apresenta como prioridade explícita — incluindo “o fim gradual do IOF sobre o câmbio” como parte do pacote de adequação às normas da organização.

O segundo é a reaproximação com parceiros específicos. O programa propõe estreitar relações com “Estados Unidos, Argentina e Israel”, citando-os nominalmente como “parceiros mais importantes e tradicionais” com os quais o governo “não tratará como adversários.” A China e a União Europeia aparecem como interlocutores relevantes dentro de uma política de diversificação comercial, mas sem o mesmo destaque.

O terceiro é a abertura comercial gradual. O programa defende integração às cadeias globais de valor, abertura para importação de bens de capital, tecnologia e insumos “para evitar dependência excessiva em áreas críticas, como tecnologia”, e internacionalização de pequenas e médias empresas por meio do BNDES e da Apex.

O que o programa não diz

O analista que lê o programa registrado no TSE por Flávio Bolsonaro nota imediatamente duas ausências notáveis.

O programa não menciona o BRICS. Não propõe sair — como Zema, que analisaremos quinta-feira. Não propõe aprofundar — como Lula. Simplesmente não menciona o bloco que inclui China, Rússia, Índia e outros países emergentes e que é um dos eixos centrais da inserção brasileira no Sul Global. Para o analista, o silêncio é uma posição — mas é difícil saber qual.

O programa também não menciona o Mercosul. O principal bloco de integração regional da América do Sul, que inclui Argentina, Paraguai e Uruguai e pelo qual o Brasil acabou de implementar provisoriamente um acordo histórico com a União Europeia, não aparece no texto registrado no TSE.

E o programa não menciona o Escudo das Américas, a aliança de segurança hemisférica criada por Trump em março com 17 países da região — da qual o Brasil está fora.

O que o discurso de campanha acrescenta

Fora do documento oficial, o candidato e seu entorno foram mais específicos.

Em entrevistas e eventos de campanha, Flávio referiu-se à perspectiva de “libertar o Brasil das amarras do Mercosul” — frase que circulou amplamente na imprensa e que indica uma visão mais crítica do bloco do que o silêncio do programa sugere.

A ideia de fundo é que o Mercosul, com suas regras de tarifa externa comum, limita a capacidade do Brasil de negociar acordos bilaterais com países como EUA, China e outros parceiros de forma independente.

Em comício em Natal, no dia 21 de setembro, Flávio foi questionado sobre a China e disse que sua relação com Pequim seria “sempre pragmática economicamente.” Declarou: “A gente não tem que escolher um lado, a gente tem que estar junto com todas as nações que sejam desenvolvimentistas, que queiram investir no nosso Brasil, que queiram trazer tecnologia.” A frase foi lida como tentativa de distanciar-se do anti-chinismo retórico dos primeiros anos do governo do pai.

A lição do governo do pai: duas fases, duas políticas

Para entender o que um governo Flávio Bolsonaro faria em política externa, o histórico do governo de Jair Bolsonaro oferece o único precedente disponível — com a ressalva de que precedente de pai não é garantia de comportamento de filho.

O governo Jair Bolsonaro teve duas fases claramente distintas em política externa. A primeira, associada ao chanceler Ernesto Araújo (2019-2021), foi marcada por retórica ideológica intensa, anti-China explícita — o deputado Eduardo Bolsonaro responsabilizou a China pelo COVID — e um alinhamento automático com Trump que deixou o Brasil isolado quando Biden assumiu.

A segunda fase, com Carlos França no Itamaraty (2021-2022), foi radicalmente diferente: pragmática, focada em comércio, menos ideológica, e bem mais eficaz em preservar a relação com a China — que por todo esse período continuou sendo o maior parceiro comercial do Brasil.

Flávio tem sinalizado publicamente que seguiria o modelo da segunda fase — pragmático, não ideológico, focado em interesses econômicos. Mas o contexto político que produz um governo é diferente do contexto que o mantém: o período de campanha de Flávio está sendo marcado por gestos de alinhamento americano muito mais explícitos do que o Carlos França teria feito.


Fonte: Clique aqui

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