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Editorial JC: Negacionismo de volta

Massificação de postagens que colocam em dúvida a eficácia das vacinas contra a Covid, e até a veracidade da pandemia, confrontam a realidade

Por

JC


Publicado em 05/08/2026 às 0:00
| Atualizado em 05/08/2026 às 6:56

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O medo crescente da doença incurável causada por um vírus assassino, que começou a ceifar vidas em várias partes do planeta. A pressão do confinamento e do distanciamento social como forma de prevenção individual, e redução da contaminação coletiva. A agonia dos pacientes isolados, entubados, em hospitais lotados sem a estrutura adequada diante da velocidade de uma pandemia. O desespero de quem perdeu familiares e amigos sem poder acompanhar e levar algum alívio ao sofrimento, nem poder se despedir com dignidade dos que partiam. A sinfonia macabra e angustiante das sirenes de ambulâncias avisando, o dia todo, por meses seguidos, que a pandemia era real, revirando pelo avesso o cotidiano do mundo inteiro.

A corrida dos laboratórios e dos cientistas pelo desenvolvimento de vacinas capazes de frear a letalidade do vírus. A espera dilacerante para contaminados e para os que buscavam escapar da morte, presos em casa ou atrás de máscaras ao pisar na rua. E enfim, a distribuição das vacinas, de maneira gradual, alcançando primeiro os grupos de maior risco, depois a maioria da população, fazendo com que o coronavírus virasse mais um vírus contra o qual podemos ter proteção.

Será que nada disso teria sido realidade? Para muita gente, a Covid foi inventada, a pandemia, pura mentira – e as vacinas, ao invés de salvar vidas, mataram ou provocaram graves enfermidades em que as tomou. O senso de absurdo que desafiou as consciências assaltadas pelo pesadelo pandêmico parece ter prevalecido na cabeça de pessoas que não aceitaram a verdade da experiência do absurdo exposto aos olhos e ouvidos de todos. Assim surgiram os negacionistas da Covid, que teimaram em não crer no que viam, duvidando simultaneamente dos vivos e dos mortos, do vírus e da vacina, declarando que a verdade dolorosa era mentira – e que a mentira que contavam, essa sim, era verdade.

Os números oficiais contam uma história de mais de 6,5 milhões de mortos no mundo, dos quais perto de 700 mil, apenas no Brasil, entre 2020 e 2022. Como os sistemas de saúde costumam apresentar subnotificações, o número deve ser maior. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam para, pelo menos, quase 15 milhões de óbitos globais direta ou indiretamente relacionados à Covid no período. O negacionismo que desacredita essa história de larga e profunda dor, trauma inafastável de nossa época, afronta não somente a racionalidade humana e nossa potencial sensatez, mas sobretudo, os falecidos e os sobreviventes da pandemia – cuja realidade lancinante não será esquecida, nem renegada facilmente.

O retorno massificado da desconfiança às vacinas contra a Covid, e da existência da própria pandemia, que invade as redes sociais e os grupos de mensagens depois que um dos expoentes do combate à doença se recusou a responder perguntas de partidários de Donald Trump no Congresso dos Estados Unidos, não deixa de ser um sinal de nosso conturbado tempo. Onde a desinformação equivale a uma notícia de jornal, ou a suplanta, por não precisar, sequer, de fatos e fontes para ser celebrada e compartilhada como verdade subjugada.

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