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Em uma era de milhares de seguidores, grupos de mensagens e conexões virtuais a um toque de tela, um paradoxo silencioso ganha espaço nas cidades: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sós.
Mais do que um sentimento passageiro de tristeza, a solidão persistente pode afetar a saúde física e mental e está associada a problemas como ansiedade, depressão, alterações do sono e declínio cognitivo. Discutimos sobre esse tema, na última quarta-feira (16), no episódio 89 do videocast Saúde e Bem-estar, do JC.
No programa, os psiquiatras Kátia Petribú e Alberto Gorayeb, além da psicóloga Benéria Donato, falaram sobre os impactos do isolamento e sobre a importância de fortalecer o que vem sendo chamado de saúde social, caracterizada pelo conjunto de relações e vínculos que também participa da manutenção do bem-estar.
Quando estar cercado não significa estar acompanhado
Há uma diferença importante entre escolher ficar só e sentir-se sozinho. A solitude, quando desejada e pontual, pode ser saudável, necessária para o descanso, a reflexão e até a elaboração de novos projetos. O problema aparece quando a solidão deixa de ser uma escolha e passa a ser acompanhada de sofrimento e de uma sensação persistente de desconexão.
A psiquiatra Kátia Petribú chamou atenção justamente para esse aspecto. “Alguém pode estar na própria casa, repleta de pessoas, ter um ciclo de amizades ‘entre aspas’ muito grande, mas ser completamente sozinho. Não sentir uma sintonia, não sentir que pode contar com elas.”
Na prática clínica, os efeitos desse isolamento podem aparecer de diferentes formas, como ansiedade, depressão, insônia e outros problemas de saúde. Por isso, Kátia Petribú defendeu que a vida social também seja considerada no cuidado com o paciente.
Em alguns casos, a recomendação vai além da prescrição de medicamentos: inclui atividades que favoreçam o contato com outras pessoas, como caminhadas em grupo, programas nos fins de semana e participação em atividades culturais ou comunitárias.
A ideia é simples: assim como se orienta alguém a se exercitar ou a manter uma rotina de sono, também pode ser necessário estimular a retomada dos vínculos.
Psiquiatras Kátia Petribú e Alberto Gorayeb, além da psicóloga Benéria Donato, falaram sobre impactos do isolamento e importância de fortalecer a saúde social – JAILTON JR./JC IMAGEM
Os três pilares da saúde social
Quando se fala em saúde, é comum pensar nas dimensões física e mental. A psicóloga Benéria Donato, especialista em terapia cognitivo-comportamental, chamou atenção para uma terceira dimensão que merece o mesmo cuidado: a saúde social.
Ela envolve não apenas a quantidade de pessoas ao redor, mas também a disponibilidade e a qualidade desses vínculos. Benéria organizou essa avaliação em três pilares:
- Estrutura: diz respeito à rede de pessoas que efetivamente fazem parte da vida de alguém e com quem existe algum nível de convivência e interação.
- Função: está relacionada ao suporte que essa rede oferece na prática. É a possibilidade de contar com alguém diante de uma necessidade concreta. “É se perguntar: eu posso realmente contar com essas pessoas se eu sentir uma dor de dente, se eu passar mal, se o pneu do meu carro furar?”, pontuou Benéria.
- Qualidade: envolve a dimensão afetiva das relações. É sentir-se acolhido, respeitado e à vontade para ser quem se é, inclusive nos momentos de fragilidade.
“Não basta só ter contato, ter pessoas. A gente precisa ter pessoas com quem a gente possa sentir que conta e conviver com pessoas com quem a gente fique à vontade”, acrescentou Benéria.
Ter uma agenda cheia, portanto, não é necessariamente sinônimo de ter uma boa rede de apoio. É possível conviver diariamente com muitas pessoas e, ainda assim, não ter com quem compartilhar dificuldades, pedir ajuda ou simplesmente conversar de maneira genuína.
Envelhecimento: preservar os vínculos também é cuidar do cérebro
A importância das relações sociais ganha ainda mais peso durante o envelhecimento. O psiquiatra e psicogeriatra Alberto Gorayeb questionou a ideia de que se afastar da vida social seja uma consequência natural de envelhecer.
A redução da convivência e dos estímulos pode contribuir para o declínio funcional e cognitivo. A socialização, por outro lado, mantém a pessoa envolvida com o ambiente, cria desafios, estimula a comunicação e ajuda a preservar uma rotina de participação.
Nesse contexto, a rede de apoio precisa ser formada além dos laços familiares. “O suporte muitas vezes não está dentro de casa. Não é o laço sanguíneo e genético que une as pessoas, é a afinidade… De repente, é preciso chamar, recrutar essa rede de apoio para a sua própria aldeia”, disse.
A “aldeia” a que o médico se refere pode incluir vizinhos, amigos de longa data, colegas, integrantes de comunidades religiosas, frequentadores de praças, grupos de atividades físicas, centros de convivência e espaços voltados ao estímulo cognitivo.
A ideia é ampliar a compreensão de família e rede de apoio: vínculos importantes também podem nascer da convivência e da afinidade.
Reaproximar sem transformar o cuidado em cobrança
O isolamento também pode se aprofundar quando a pessoa passa a evitar situações sociais, perde a confiança nos outros ou demonstra resistência em aceitar ajuda. Nesses casos, insistir de forma impositiva pode aumentar ainda mais a distância.
Para Kátia Petribú, uma possibilidade de oferecer ajuda é trocar a cobrança por uma comunicação mais afetiva e direta. “Não se deve apostar na obrigação. A pessoa deve conversar com base no que está sentindo: ‘Eu estou insistindo (para ir ao médico ou outro profissional) por amor, porque eu o amo. Se eu não o amasse, não estaria nem aí’.”
A abordagem parte menos da tentativa de convencer o outro e mais da disposição de mostrar por que aquele vínculo importa.
Relações também podem ser aprendidas
Outro ponto destacado pelos especialistas é que dificuldade de interação social não precisa ser encarada como uma característica imutável.
As habilidades socioemocionais podem ser desenvolvidas, praticadas e retomadas em diferentes fases da vida. Aprender a iniciar uma conversa, manter vínculos, pedir ajuda, estabelecer limites e lidar com diferenças também faz parte do cuidado com a saúde.
Em uma sociedade que oferece cada vez mais possibilidades de conexão digital, o desafio talvez esteja justamente em não confundir conectividade com vínculo.
Ter contatos é diferente de ter com quem contar. E cuidar da saúde social significa, em grande medida, construir e preservar relações nas quais exista espaço para presença, confiança, afeto e reciprocidade.
No fim das contas, estar conectado pode começar com um toque na tela. Mas sentir-se acompanhado exige algo que nenhuma tecnologia substitui: o vínculo humano.

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