Em mais um capítulo da escalada retórica contra Washington, Nicolás Maduro transformou um comício em Petare, no leste de Caracas, em um ato simbólico e desafiador. Diante de uma multidão de apoiadores, o presidente venezuelano voltou a mirar os Estados Unidos — desta vez, cantando um trecho de Imagine, clássico de John Lennon, enquanto pedia “paz”, mas acusava os norte-americanos de conduzirem movimentações militares consideradas provocativas no Caribe.
O discurso ocorreu no sábado (15), em meio a uma nova rodada de exercícios conjuntos entre os EUA e Trinidad e Tobago, movimentos que Maduro classificou como “irresponsáveis” e “ameaçadores”. Segundo ele, a operação, apresentada por Washington como parte do combate ao narcotráfico, representa uma clara intimidação contra a Venezuela.
Críticas também ao governo de Trinidad e Tobago
Maduro ampliou a ofensiva verbal e atacou diretamente Trinidad e Tobago, acusando o país de permitir que suas águas tenham sido novamente cedidas para atividades militares dos EUA. Em tom de denúncia, afirmou que Caracas não aceitará “qualquer tipo de intimidação externa”.
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A tensão não é nova. O governo norte-americano classificou Maduro como líder do suposto Cartel de los Soles — rótulo adotado ainda na gestão Trump — e acusa o regime venezuelano de facilitar o envio de drogas ao território americano. A recente atracação de um navio militar dos EUA a cerca de 10 km da costa venezuelana foi tratada pelo Palácio de Miraflores como uma provocação direta.
Mobilização e clima de vigilância
Durante o comício, Maduro pediu que moradores dos estados orientais mantenham vigilância e mobilização contínuas durante o período dos exercícios militares, de 16 a 21 de novembro. Ele convocou atos “com fervor patriótico”, mas recomendou que seus seguidores evitem confrontos diretos.
“Digam com energia: fora daqui, navios imperialistas!”, afirmou, ao mesmo tempo em que orientava que nenhuma provocação fosse respondida com violência.
EUA enviam maior porta-aviões do mundo ao Caribe
As críticas de Maduro ocorreram logo após Washington anunciar a chegada do Gerald Ford — o maior porta-aviões do planeta — à região. Os Estados Unidos ampliaram também as operações contra embarcações ligadas ao narcotráfico. Segundo o Pentágono, desde setembro foram destruídas 21 lanchas suspeitas, com pelo menos 80 mortos em confrontos.
Para o governo venezuelano, o aumento da presença militar dos EUA no entorno do país faz parte de uma estratégia para desestabilizar o regime. Autoridades chavistas afirmam que o movimento ameaça a paz regional e pode desencadear uma escalada perigosa.
Maduro, por sua vez, tenta canalizar a tensão externa para reforçar sua narrativa interna: a de um país cercado por forças estrangeiras e ameaçado em sua soberania, enquanto ele se apresenta como o líder capaz de resistir — ainda que cantando Lennon em comícios políticos.
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