Oito anos depois da crítica de Mano Brown, o partido enfrenta os mesmos problemas e Lula chega ao segundo turno precisando aprender a ouvir.
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Em 2018, cinco dias antes de Fernando Haddad (PT) perder a eleição presidencial para Jair Bolsonaro, Mano Brown subiu a um palanque petista nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, e interrompeu a festa. Diante de artistas, dirigentes e militantes, cobrou do partido a capacidade de compreender o povo que pretendia representar. “Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber.” Recebeu vaias. A advertência incomodava mais do que a perspectiva da derrota.
Desconexão
Aquela foi a última vez que o PT perdeu uma eleição presidencial. Oito anos depois, os problemas parecem ter sido exatamente os mesmos. O partido voltou ao poder em 2022, mas a vitória parece ter servido para dispensar a reflexão que a derrota anterior exigia. Recuperou a Presidência e se comportou como se tivesse recuperado também a compreensão sobre todos os brasileiros. A urna deste domingo mostrou o tamanho do engano.
O PT não faz mea culpa, o PT define o que acha que é melhor para os brasileiros e o PT ignora o que o brasileiro pensa. É a receita para perder uma eleição. Quando o eleitor se afasta, o partido procura uma explicação que preserve sua própria certeza. Faltou comunicação, faltou reconhecimento, faltou ao cidadão entender o que o governo fez por ele. Nesse raciocínio, o eleitor está sempre devendo alguma coisa ao PT. O PT raramente considera que pode estar devendo alguma coisa ao eleitor.
A desconexão entre o que Lula pensa e fala com aquilo que o brasileiro pensa e deseja é cada vez maior. O presidente continua recorrendo à própria trajetória como se ela respondesse às inquietações do presente. Quem está preocupado com a vida que leva hoje recebe uma lembrança do que aconteceu vinte anos atrás. Quem pergunta pelo futuro é convidado a agradecer pelo passado. A história de Lula tem peso, mas o eleitor não está obrigado a passar a vida votando em homenagem a ela.
Comando
Lula não escuta e quer determinar o que é melhor para o Brasil, mas se recusa a ouvir o Brasil. Um exemplo muito forte foi o da entrevista para o Jornal Nacional em que ele tentou ensinar à jornalista que pergunta ela deveria fazer para ele. Questionado por Renata Vasconcellos sobre a dívida pública e suas metas fiscais, começou indicando que ela deveria ter formulado a pergunta de outra maneira, mencionando os resultados de seus primeiros governos. A cobrança sobre o próximo mandato virou uma cobrança à entrevistadora por não começar elogiando os anteriores.
A cena ajuda a compreender sua postura na campanha. O presidente queria escolher também o ponto de partida da pergunta. Seu passado deveria vir antes da dúvida, seu mérito antes da cobrança, seu entendimento antes da preocupação apresentada. Lula não está na eleição para ouvir, ele quer determinar, mandar. Ocorre que uma campanha exige convencer pessoas que têm outras prioridades e que podem avaliar o governo de maneira diferente daquela que o governante considera justa.
Recado
E os brasileiros deram um recado muito claro para ele. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente dos 45,16% de Lula, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O presidente chega à segunda etapa atrás de um adversário que disputa a Presidência pela primeira vez. A diferença permite uma reação, mas exige reconhecer que a campanha feita até aqui foi insuficiente.
Lula terá de disputar justamente o eleitor que sua campanha parece ter dificuldade de compreender. Gente que conhece sua história, sabe que ele já foi presidente e, ainda assim, decidiu votar em outra pessoa. Repetir o currículo não resolve essa conversa. Cobrar gratidão também não. É preciso perguntar por que esse brasileiro quer mudar de governo e aceitar que a resposta pode contrariar o discurso que o PT preparou para ele.
Escuta
Mano Brown fez sua advertência dentro de um palanque, apoiando o candidato petista, antes que a derrota de 2018 se consumasse. Havia tempo para ouvi-lo, mesmo que já faltasse tempo para corrigir o rumo daquela campanha. Oito anos depois, Lula tem um segundo turno pela frente e uma nova oportunidade de compreender o aviso. A insistência em falar apenas para quem já concorda pode produzir aplausos nos atos e outra derrota nas urnas.
Resta saber se ele ouviu e se entendeu. Caso contrário, Flávio Bolsonaro, surpreso, deve virar presidente.

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