Símbolos da polarização que dominou o Brasil nos últimos anos, Lula e Bolsonaro construíram trajetórias políticas distintas, mas uma diferença se tornou especialmente visível depois que os dois chegaram à Presidência: a capacidade de formar novas lideranças.
Enquanto Jair Bolsonaro levou ao governo nomes que posteriormente conquistaram espaço eleitoral próprio, Lula manteve a esquerda fortemente vinculada à própria figura e chega a 2026 ainda como o principal nome nacional de seu campo, sem um sucessor que tenha alcançado estatura semelhante.
O contraste ficou mais evidente depois do primeiro turno das eleições de 2026, realizadas no último domingo.
Tarcísio de Freitas, que chegou à política eleitoral nacional pelas mãos de Bolsonaro, foi reeleito governador de São Paulo no primeiro turno, com 62,65% dos votos válidos.
Já Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e um dos principais nomes construídos pelo Partido dos Trabalhadores de Lula, terminou a disputa em segundo lugar, sem avançar para uma nova votação.
Tarcísio é o exemplo mais claro da capacidade de Bolsonaro de projetar um aliado político.
Engenheiro e servidor público, o governador reeleito pelo Republicanos não tinha carreira eleitoral quando foi escolhido para comandar o Ministério da Infraestrutura no início do governo Bolsonaro, em 2019.
Mas a passagem pela Esplanada deu a Tarcísio projeção nacional e serviu de trampolim para a disputa pelo governo de São Paulo em 2022.
Quatro anos depois, ele foi reeleito em primeiro turno e consolidou uma carreira política que já possui dimensão própria. Vale lembrar que Tarcísio chegou a ser cotado para disputar a presidência, como sucessor direto do legado de Jair Bolsonaro.
Damares Alves percorreu caminho semelhante. Ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ela deixou o governo Bolsonaro para disputar o Senado pelo Distrito Federal em 2022.
Foi eleita com 714.562 votos, ou 44,98% dos votos válidos, em sua primeira eleição. Damares continua no Senado e tem mandato até 2031, com forte influência política entre a bancada de direita na Casa e defesa de pautas ligadas às mulheres e direitos humanos.
O grupo que chegou ao governo Bolsonaro também deixou outros nomes eleitoralmente competitivos.
Michelle Bolsonaro, que ocupou o posto de primeira-dama durante os quatro anos do mandato, foi eleita senadora pelo Distrito Federal em 2026 em sua primeira disputa eleitoral, com 29,1% dos votos.
Ao lado dela, Bia Kicis, deputada federal eleita pela primeira vez em 2018 e reeleita em 2022, também conquistou uma vaga no Senado. As duas se juntarão a Damares a partir de 2027, formando a primeira bancada feminina do Senado do Distrito Federal.
Flávio Bolsonaro representa outro tipo de herança política.
Diferentemente de Tarcísio e Damares, ele já tinha uma carreira eleitoral antes de o pai chegar ao Planalto.
Foi deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos e eleito senador em 2018. Em 2026, entretanto, tornou-se o primeiro integrante da família Bolsonaro, além do próprio Jair, a disputar a Presidência e chegou ao segundo turno contra Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Enquanto a direita viu nomes despontarem no cenário político nacional, o mesmo não ocorreu com a esquerda, onde o histórico é mais concentrado na figura de Lula.
O episódio envolvendo Ciro Gomes em 2018 é um dos exemplos mais claros deste cenário.
Naquele ano, enquanto estava preso em Curitiba, Lula desautorizou tratativas do PT com Ciro, então pré-candidato do PDT à Presidência.
Lula conversou com Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann e vetou os acenos ao pedetista, reafirmando que continuaria candidato. Naquele período, governadores como Camilo Santana e Rui Costa e o então ex-governador Jaques Wagner defendiam a possibilidade de uma aliança com Ciro para criar alternativas ao nome do atual presidente.
A decisão teve consequência direta para a eleição daquele ano.
Lula permaneceu como candidato do PT até ser barrado pela Justiça Eleitoral e, somente depois, Haddad foi lançado oficialmente para substituí-lo nas urnas.
O ex-prefeito de São Paulo acabou chegando ao segundo turno, mas a candidatura nasceu como uma substituição de última hora ao líder máximo do partido, e não como resultado de uma sucessão política planejada durante anos.
Haddad se tornou, desde então, o exemplo mais evidente da dificuldade do lulismo para transformar um aliado em uma liderança nacional autônoma.
Fernando Haddad foi ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, prefeito de São Paulo, candidato à Presidência em 2018, candidato ao governo de São Paulo em 2022 e ministro da Fazenda no terceiro governo Lula.
Ainda assim não conseguiu conquistar o governo de São Paulo e terminou derrotado por Tarcísio no primeiro turno.
Lula continua sendo até hoje a figura capaz de unificar o campo de centro-esquerda e não existe um sucessor claro com a mesma dimensão nacional do atual presidente. Haddad e Camilo Santana são citados entre os nomes com potencial para o futuro, mas nenhum alcançou o peso político e eleitoral de Lula.
O próprio presidente nacional do PT, Edinho Silva, já admitiu que a legenda tem bons nomes, mas restritos a lideranças regionais, e dificuldades para construir um sucessor com o mesmo alcance de Luiz Inácio Lula da Silva.
Isso ajuda a explicar uma característica peculiar do lulismo: a força de Lula é, ao mesmo tempo, a principal vantagem e uma dificuldade para a construção de uma sucessão.
O presidente continua sendo capaz de reunir partidos, correntes internas e diferentes setores da esquerda em torno de seu nome. O problema aparece quando a pergunta muda de “quem lidera a esquerda hoje?” para “quem liderará a esquerda quando Lula não estiver mais na disputa?”.
A comparação com Bolsonaro não significa que o bolsonarismo tenha produzido uma sucessão organizada ou livre de conflitos.
O campo da direita também passou por disputas internas, rompimentos e brigas entre aliados. A diferença é que, mesmo com Bolsonaro fora da urna, nomes associados ao ex-presidente conseguiram ocupar espaços próprios.
A eleição do último domingo tornou mais visível a diferença entre os dois campos.
Bolsonaro não disputou a Presidência, mas Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno contra Lula com vantagem de votos.
Tarcísio de Freitas foi reeleito governador de São Paulo, enquanto Michelle Bolsonaro e Bia Kicis conquistaram vagas no Senado pelo Distrito Federal. Damares Alves, eleita em 2022, permanece na Casa até 2031.
Além disso, o PL de Jair Bolsonaro aumentou a bancada na Câmara e no Senado, com nomes de grande representatividade como Nikolas Ferreira; e elegeu governadores ainda em primeiro turno em estados importantes como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
São trajetórias diferentes e nem todas nasceram exclusivamente da atuação de Bolsonaro.
No campo petista, Lula continua no centro da disputa nacional.
Aos 80 anos, concorre à reeleição e segue como a principal referência eleitoral do PT. Haddad, Camilo Santana, Rui Costa e outros nomes ocupam posições de destaque, mas nenhum deles se consolidou até agora como sucessor natural de Lula na disputa presidencial.
É nesse contraste que a imagem de uma terra fértil de um lado e uma terra arrasada do outro ganha sentido.
Não se trata de afirmar que Bolsonaro tenha criado sozinho todos os nomes de seu campo ou que Lula tenha eliminado seus aliados. A diferença está no resultado político acumulado: de um lado, figuras que passaram pelo entorno do governo Bolsonaro chegaram a construir trajetórias eleitorais próprias; de outro, a esquerda permanece fortemente organizada em torno de Lula.

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