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cansaço intenso pode ser sinal de alerta

Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Uma dor no braço esquerdo que irradia para outras partes do corpo costuma ser um dos sinais de alerta mais conhecidos quando se fala em infarto agudo do miocárdio. No entanto, o infarto em mulheres nem sempre se manifesta dessa forma. Náuseas, vômitos, suor frio, mal-estar, dor na região do estômago e um cansaço intenso, desproporcional ao esforço realizado, também podem indicar que algo não vai bem com o coração.

Embora a dor no peito continue sendo o sintoma mais comum tanto em homens quanto em mulheres, outras manifestações podem dificultar o reconhecimento do infarto em mulheres. A fadiga incomum, a falta de ar e o desconforto abdominal merecem atenção, especialmente quando aparecem de forma repentina ou durante atividades habituais.

A paulista Yone Reis (60) conhece as consequências de não identificar imediatamente esses sinais. Em novembro de 2025, ela começou a sentir um cansaço fora do habitual. Dias depois, durante um exercício na academia, teve a primeira dor no peito. Nas semanas seguintes, os episódios se repetiram, acompanhados de mal-estar e dificuldade para realizar tarefas que antes faziam parte da rotina.

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Mesmo após procurar atendimento médico em diferentes ocasiões, o diagnóstico demorou a chegar. Foi somente depois de uma sequência de episódios dolorosos que Yone passou por um cateterismo e recebeu o primeiro stent, dispositivo implantado para ajudar a manter a artéria aberta.

Um cansaço que não passava

Yone mantinha uma rotina de exercícios três vezes por semana. Em meados de novembro de 2025, porém, percebeu que já não conseguia manter o mesmo ritmo.

“Eu tinha uma meta de 20 minutos e três quilômetros na bicicleta. Não conseguia mais me exercitar. Vinha sentindo muito cansaço”, recorda.

A primeira dor no peito surgiu durante a atividade física e passou pouco depois. O personal trainer sugeriu uma mudança nos exercícios, e ela continuou frequentando a academia. O cansaço, no entanto, persistiu.

Nos últimos dias daquele mês, Yone viajou com o marido para o Ceará. A primeira parada foi Fortaleza. Durante um passeio pelas ruas mais íngremes da cidade, voltou a sentir o esgotamento. Ela chegou a perguntar ao marido se ele também estava cansado. Ele respondeu que não.

No dia seguinte, teve um novo episódio de mal-estar. O casal seguiria viagem para Jericoacoara, a cerca de quatro horas da capital cearense. Depois de um domingo na praia, Yone voltou a se sentir muito cansada, desta vez o mal-estar veio acompanhado de uma dor forte no peito.

Ela procurou um pronto atendimento, onde foi submetida a um eletrocardiograma, medicada com um calmante e liberada. Yone voltou mais três vezes ao pronto atendimento. Era medicada e liberada. A programação da viagem se manteve e para tornar os passeios menos desgastantes, o casal alugou um buggy nos dias seguintes.

“É um cansaço como se eu tivesse corrido um quarteirão inteiro”, recorda.

Segundo ela, cada novo episódio parecia mais intenso que o anterior. Na véspera do retorno da viagem, um eletrocardiograma indicou pela primeira vez uma alteração. Ainda eram necessários exames de sangue para concluir a investigação. Ela recebeu medicação e voltou à hospedagem.

Na sexta-feira, dia previsto para retornar a Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Yone teve outro mal-estar ao chegar ao aeroporto de Fortaleza. O casal procurou atendimento, e a orientação foi seguir viagem e ir diretamente ao hospital ao desembarcar em São Paulo.

Na capital paulista, ela passou por uma nova avaliação. O eletrocardiograma foi repetido, e os exames de sangue apresentaram uma alteração discreta. Mais uma vez, recebeu medicamentos e teve alta. A dor, contudo, não havia desaparecido.

No domingo, enquanto lavava a louça do café da manhã, sentiu uma nova crise, mais intensa. Dessa vez, foi submetida a um cateterismo. Em 9 de dezembro, recebeu o primeiro stent.

Depois do procedimento, começou a sentir tonturas, e a medicação precisou ser trocada. Meses mais tarde, novos exames identificaram outra artéria com 50% de obstrução. A indicação foi realizar um segundo cateterismo, quando um novo stent foi implantado.

Desde então, os cuidados com a saúde passaram a fazer parte de sua rotina de maneira ainda mais intensa. Apesar dos procedimentos, Yone relata que ainda sente cansaço ao realizar atividades simples e, ocasionalmente, uma queimação no peito.

“Eu vejo outras pessoas que ficaram boas. Para mim, não ficou 100%”, conta.

Infarto em mulheres: quando os sintomas não parecem vir do coração

O relato de Yone chama a atenção para manifestações que podem não ser imediatamente associadas a um problema cardiovascular.

“A dor no meio da barriga às vezes não é um quadro abdominal, às vezes é coronário. A mulher, normalmente, é propensa a algumas outras condições, tipo dissecção de coronária, que também pode provocar um infarto um pouquinho diferente”, explica Daniel Marotta, cardiologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

A dissecção espontânea de uma artéria coronária é uma das condições associadas ao infarto que podem apresentar características diferentes daquelas observadas no quadro mais conhecido. Também podem ocorrer alterações nos pequenos vasos que irrigam o coração, erosão de placas nas artérias e situações em que há sinais de infarto em mulheres sem obstrução coronariana significativa.

Marília Higuchi, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês, explica que o termo sintomas atípicos é utilizado para descrever manifestações que não correspondem à dor torácica opressiva clássica. Entre elas estão falta de ar, fadiga intensa e incomum, náuseas, vômitos, desconforto na região do estômago, dor na mandíbula, nas costas ou nos ombros, suor frio e tontura.

Isso não significa, entretanto, que as mulheres não sintam dor no peito. Esse continua sendo o sintoma mais comum nos dois sexos.

O cuidado, segundo a especialista, é não atribuir automaticamente os sinais a ansiedade, problemas digestivos ou cansaço cotidiano quando surgem de maneira repentina, aparecem durante um esforço, vêm acompanhados de suor frio ou falta de ar ou ocorrem em pessoas com fatores de risco cardiovascular.

Outro ponto importante é a intensidade da dor. Uma manifestação aparentemente leve não significa, necessariamente, um problema menos grave. A intensidade da dor não corresponde de forma confiável à extensão do infarto, e quadros mais silenciosos podem ocorrer, especialmente entre idosos, pessoas com diabetes e mulheres.

No caso de Yone, o cansaço começou antes dos episódios mais intensos de dor no peito. A dificuldade para manter a rotina de exercícios e o esgotamento durante as caminhadas passaram a fazer parte de uma sequência de sinais que se prolongou por semanas.

A cardiologista Marília Higuchi também chama a atenção para os sintomas que podem anteceder um infarto, como dor no peito de início recente ou progressivo, desconforto que aparece mesmo em repouso, falta de ar e fadiga desproporcional ao esforço habitual.

A associação com atividades físicas, o alívio com repouso e a presença de outros sintomas, como náuseas e suor frio, ajudam a diferenciar esses sinais do cansaço comum. Mesmo quando os sintomas desaparecem espontaneamente, porém, o risco não está necessariamente afastado.

Os fatores de risco ao longo da vida

As diferenças entre homens e mulheres também envolvem aspectos hormonais e características da doença coronariana. De acordo com Marília, o estrogênio exerce efeitos protetores sobre os vasos sanguíneos e o perfil lipídico até a menopausa. Por isso, o primeiro infarto ocorre, em média, de sete a dez anos mais tarde nas mulheres.

Essa diferença, contudo, não significa que elas estejam livres do risco. O prognóstico pode ser pior entre mulheres jovens que sofrem um infarto.

Com a queda dos níveis de estrogênio, podem ocorrer alterações no colesterol, aumento da pressão arterial, maior concentração de gordura na região abdominal, resistência à insulina e disfunção do endotélio, camada que reveste internamente os vasos sanguíneos.

Diabetes, hipertensão, colesterol elevado, obesidade e tabagismo são fatores de risco importantes para ambos os sexos. Segundo a médica, alguns deles, como diabetes e tabagismo, podem representar um aumento proporcionalmente maior do risco cardiovascular nas mulheres.

A cardiologista também destaca a necessidade de atenção a condições como pré-eclâmpsia, hipertensão ou diabetes gestacional, parto prematuro, menopausa precoce, síndrome dos ovários policísticos e doenças autoimunes.

A rotina contemporânea pode agravar esse cenário. O cardiologista Daniel Marotta observa que as mulheres frequentemente acumulam responsabilidades profissionais e domésticas, além dos cuidados com os filhos, em meio a alterações hormonais e hábitos que nem sempre favorecem a saúde.

“As mulheres também apresentam uma jornada mais intensa, com o trabalho e cuidado com o lar, os filhos, tem a questão hormonal, a evolução dos ultraprocessados. Hoje em dia, muitas pessoas têm problemas de sono, usam estimulantes, tudo isso trabalha contra o coração”, afirma.

O cardiologista também alerta para o aumento de fatores de risco entre pessoas mais jovens, como hipertensão arterial, diabetes, obesidade e alterações nos níveis de gorduras no sangue, incluindo colesterol e triglicerídeos.

A prevenção, portanto, não deve começar apenas quando surgem sintomas ou quando a pessoa chega à idade considerada de maior risco.

Para Marotta, a avaliação da saúde cardiovascular precisa considerar o histórico familiar desde cedo, especialmente quando há casos de doença coronariana entre parentes de primeiro grau. O alerta é maior quando o problema atinge homens com menos de 55 anos ou mulheres com menos de 65 anos.

“Desde a ida ao pediatra, já vale pedir um perfil lipídico, medir a pressão. Assim, a gente já conhece se tem familiar com risco”, avalia.

Marília destaca que a aferição da pressão arterial e a avaliação dos níveis de colesterol e glicose podem começar por volta dos 20 anos. A avaliação formal do risco cardiovascular costuma ser indicada a partir dos 40 anos, ou antes, quando há histórico familiar, diabetes, obesidade ou outros marcadores de risco.

“O maior recado é que a prevenção cardiovascular deve começar cedo. Aquele infarto aos 40, aos 50, aos 60 ele é reflexo de uma vida, da maratona da vida, não foi uma corrida de 100 metros que começou há cinco minutos”, conclui Marotta.

Tempo é músculo: o que fazer diante de uma suspeita de infarto

O infarto agudo do miocárdio ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do músculo cardíaco é comprometido, provocando falta de oxigênio e lesão das células. Em muitos casos, isso acontece quando uma placa de gordura na artéria se rompe ou sofre erosão, favorecendo a formação de um coágulo que dificulta ou impede a passagem do sangue.

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Quanto mais tempo a circulação permanece comprometida, maior pode ser a área do coração afetada. O processo favorece a perda da capacidade de contração do músculo cardíaco, além de aumentar o risco de arritmias e insuficiência cardíaca.

Por isso, reconhecer os sintomas e procurar atendimento rapidamente faz diferença no tratamento. A orientação diante de qualquer suspeita de infarto é acionar imediatamente o serviço de emergência pelo telefone 192 e pedir ajuda a alguém que esteja por perto. Marotta ressalta que a pessoa não deve esperar que a dor passe, nem fazer esforço ou dirigir sozinha até o hospital.

Também não é recomendado recorrer à automedicação, incluindo analgésicos, antiácidos ou medicamentos de terceiros.

A prevenção também passa por hábitos cotidianos. A prática regular de atividade física, o controle da pressão arterial, da glicemia e do colesterol, uma alimentação adequada e a atenção à qualidade do sono contribuem para a saúde cardiovascular.

A recomendação apresentada pelos especialistas é realizar pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada ou 75 minutos de atividades mais intensas, como corrida, natação ou ciclismo, respeitando as condições e orientações individuais.

Infarto: perguntas e respostas

Qual é a primeira atitude que uma pessoa deve tomar ao suspeitar de um infarto?

Diante de qualquer sintoma sugestivo de infarto deve-se acionar o atendimento de emergência imediatamente (192) e buscar ajuda de alguém que esteja por perto. É imprescindível que a pessoa busque ajuda.

O que não deve ser feito durante uma suspeita de infarto?

Não é recomendado que a pessoa com dor saia ou dirija sozinha devido ao risco de ter arritmia ou uma parada cardíaca. Também não é indicado se automedicar com analgésicos, antiácidos ou aspirina.

Por que cada minuto é importante no atendimento ao infarto? Existe diferença no prognóstico quando o tratamento começa nas primeiras horas?

O especialista explica que na medicina o “tempo é músculo”, e que cada minuto que o músculo está fechado, uma parte do coração está morrendo. Quanto antes for tratado, antes é restabelecido o fluxo normal reduzindo complicações e o risco de mortalidade.

A atividade física regular consegue reduzir o risco cardiovascular?

Sim. A recomendação é que cada pessoa realize pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica ou 75 minutos de atividades como corrida, natação ou ciclismo por semana.

Qual é o impacto do sono, estresse e alimentação na saúde do coração?

O sono é considerado componente essencial da atividade cardiovascular. Sem qualidade do sono, o coração trabalha durante a noite da mesma forma que trabalha durante o dia – o que pode gerar uma reação inflamatória. O estresse e uma alimentação inadequada são fatores que também contribuem para um processo inflamatório do coração.


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