O mês de julho é marcante na história de Santa Catarina, destacando os 110 anos dos últimos combates da Guerra do Contestado e a prisão do sanguinário líder Adeodato Ramos. Registra também as intensas negociações para a assinatura do Tratado de Limites, reconhecendo os direitos dos catarinenses sobre uma gigantesca área ocupada pelo Paraná, que ia do Planalto catarinense até a fronteira com a Argentina.
Praticamente ignorada nos livros escolares e proibida pelo Exército e pelas polícias militares, começou a ser resgatada nos meios intelectuais a partir de 1952, pelo médico Aujor Luz e, na área oficial, em 1983, pelo empenho do governador Esperidião Amin.
A Guerra do Contestado foi mais longa e devastadora do que a Guerra de Canudos. Os conflitos catarinenses duraram cerca de quatro anos (1912-1916), enquanto os confrontos no interior da Bahia terminaram após 11 meses (1896-1897). A do Sul envolveu uma área de 28 mil km² dos Estados de Santa Catarina e Paraná. O do Nordeste limitou-se a um arraial no sertão baiano, onde o balanço foi de 15 mil a 20 mil mortos. Em Santa Catarina, mais de 10 mil pessoas morreram, sendo que no Vale Sagrado de Santa Maria, uma chacina que teria mudado até a cor do rio Timbó.
Entre no grupo
Os combates mais violentos ocorreram também aqui no Estado, com a mobilização do Exército durante anos. E o catarinense teve até aviões em operações militares pela primeira vez no Brasil. Por tudo isso, os historiadores costumam concluir que a Guerra do Contestado foi o maior conflito social rural da história da República.
Batalha escondida
Uma das diferenças significativas está na divulgação. Enquanto Canudos teve reportagens especiais do jornalista Euclides da Cunha, depois transformadas no clássico “Os Sertões”, em Santa Catarina o noticiário era favorável aos militares e mais crítico aos sertanejos. Com outra diferença: o livro de Euclides da Cunha foi lançado em 1902, enquanto a primeira obra sobre o Contestado, do médico e historiador Aujor Ávila da Luz, começou a circular e apenas em 1952. Enquanto uma teve a cobertura permanente do jornal “O Estado de São Paulo”, a outra foi “escondida” durante sete décadas.
Foi justamente em julho de 1916 que aconteceu o estágio final de massacre de Santa Maria, marcado por um inverno rigoroso, pela fome generalizada e pela caçada decisiva a Adeodato Ramos, o último líder rebelde.
Cenário de terra arrasada
Depois de anos de bombardeios e investidas do Exército, os poucos sobreviventes estavam encurralados em condições desumanas. As chamadas “cidades santas” estavam quase todas destruídas. Os sobreviventes contraíram grave epidemia de tifo e viviam com a fome extrema causada pela tática de “terra arrasada”. As tropas queimavam plantações para forçar a rendição. Com a morte ou rendição dos antigos líderes e monges, o líder Adeodato Ramos assumiu o comando dos últimos rebeldes, exercendo liderança militar severa sobre os sobreviventes. Mesmo embrenhado nas matas da região e fugindo com um grupo cada vez menor, rendeu-se em julho de 1916.
Em 20 de outubro daquele ano, enquanto o Exército perseguia Adeodato Ramos, no Palácio do Catete, no Rio, avançavam as negociações para a assinatura do Tratado entre Santa Catarina e Paraná, pelos governadores Felipe Schmidt (SC) e Afonso Camargo (PR), com medição do presidente Venceslau Brás.
As causas da guerra
Foram vários os fatores que provocaram a Guerra do Contestado em dezenas de municípios da região serrana e do Planalto Norte de Santa Catarina. Os estudiosos convergem para cinco principais motivos:
1) a questão da terra com a expulsão dos posseiros nas margens do rio do Peixe, pela Brazil Railway Company, que passou a desapropriar, entre 1908 e 1910, todos os ocupantes numa faixa de 15 km nas duas margens do rio;
2) a antiga disputa de limites, inclusive na Justiça, entre Santa Catarina e Paraná, sem solução;
3) o impacto econômico da construção da ferrovia americana e a consequente exploração da madeira com potentes serrarias;
4) a pobreza e o abandono das populações sertanejas expulsas;
5) a liderança messiânica dos monges que uniu os caboclos dando-lhes esperanças de nova vida.
Combate do Irani, o estopim do conflito
Travado em 22 de outubro de 1912, o Combate do Irani foi o estopim da Guerra do Contestado. Ocorreu no Faxinal do Irani, situado às margens da BR-473, distante 440 km da Capital, na época administrado por Palmas (PR). Os sertanejos expulsos das terras pela Brazil Railway, liderados pelo monge José Maria José, ali se reuniram. O Regimento de Segurança do Paraná, comandado pelo coronel João Gualberto, rumou para expulsar os “invasores”. Morreram o militar e o monge.
No local permanece o Vale dos 21, onde foram sepultados os mortos. E ali existe o Cemitério do Contestado, a sepultura do monge José Maria, o Museu do Contestado, o Marco do Contestado, várias dessas iniciativas do historiador e compositor Vicente Telles, ali nascido.
A morte de José Maria multiplicou o número de revoltosos, que acreditavam no seu retorno para liderar um Exército Santo. O Combate de Irani espalhou o sentimento de revolta dos sertanejos expulsos de suas terras e revelou a gravidade da questão social naquela região. Este fato representou maiúscula vitória sobre o Paraná e culminou com a assinatura do Tratado de Limites.
O Tratado de Limites
O conflito sobre as divisas entre Santa Catarina e Paraná datam de 1853, por conta de antiga disputa com a Argentina. Após a Proclamação da República, o ministro “traíra” Quintino Bocaiúva entregou o grande Oeste para a Argentina no Acordo de Montevidéu, contestado com documentos por Dionísio Cerqueira e, finalmente, decidido pelo Brasil pelo árbitro do presidente Cleveland, dos Estados Unidos, em 1895.
A contenda foi decidida três vezes (1904, 1909 e 1910) a favor dos catarinenses no Supremo Tribunal Federal, com atuação destacada do Conselheiro Mafra e do ministro André Cavalcanti, além da controvertida ação de Rui Barbosa apoiando o Paraná. A descabida reação do Paraná com negativas políticas de execução acabou provocando a guerra.
O histórico Acordo de Limites foi assinado no Palácio do Catete, no Rio, em 20 de outubro de 1916. Santa Catarina ficou com área de 28 mil km², enquanto o Paraná com 20 mil km².
Já o julgamento de Adeodato Ramos foi presidido pelo juiz criminal Guilherme Willy Abry, mais tarde desembargador e depois homenageado com o nome do Fórum de Blumenau.
Os enfrentamentos entre os dois Estados continuaram na Justiça, com a polêmica sobre os “royalties” do petróleo, já com mais de 30 anos de tramitação, iniciativa corajosa do governador Vilson Kleinübing, em 1991.
Especialistas constataram que “a histórica dívida com toda a região do Contestado, a mais pobre e carente de Santa Catarina, somente agora vai deixando para trás as marcas sociais do conflito”.
A rendição de Adeodato Ramos e o fim da guerra
A cronologia da Guerra do Contestado registra que o último capítulo aconteceu entre 25 e 31 de julho de 1916, na furiosa caça ao líder dos revoltosos, Adeodato Ramos, considerado cruel, feroz e impiedoso até com os companheiros, mulheres e crianças.
Depois de semanas escondidos na mata fechada, debilitado pela fome, pelo cansaço e pelo frio, deixou o esconderijo para aquecer-se do sol e proteger-se da intensa geada. Foi identificado por uma patrulha e sem forças sequer para fugir, entregou-se aos militares no fim daquele mês, fato que, na prática, encerrava o doloroso conflito.
Julgado em Florianópolis, Adeodato foi condenado a 30 anos de prisão, depois de uma longa campanha de difamação pela imprensa.
Transferido para a Cadeia Pública de Florianópolis, não chegou a cumprir toda a pena. Em 3 de janeiro de 1923, após sete anos encarcerado, ele foi morto a tiros pelo próprio diretor do presídio, o capitão Trogílo de Melo, que alegou tentativa de fuga.
Protesto no julgamento
O momento mais emblemático do julgamento ocorreu logo após o juiz ler a sentença condenatória. Adeodato manteve a postura e declamou versos irônicos e críticos diante o tribunal, denunciando a desigualdade social.
“Para tirar o mal do mundo / Tinha feito uma jura
Ajudei nosso governo / A quem amo por ternura
Acabei com dez mil pobres / Que livrei da escravatura
Liquidei todos os famintos / E os doentes sem mais cura
Quem é pobre neste mundo / Só merece sepultura.”
A bibliografia
O primeiro historiador a focalizar a Guerra do Contestado foi o médico Aujor Ávila da Luz, de Florianópolis, depois de exercer cargos públicos na saúde na área do conflito. Lançado em 1952, tinha por título “Os Fanáticos – Crimes e Aberrações da Religiosidade de Nossos Caboclos”. Além dele, outros autores escreveram sobre o tema. Entre eles, Oswaldo Rodrigues Cabral, Nilson Thomé, Guido Wilmar Sassi, Godofredo de Oliveira Neto, Paulo Pinheiro Machado, Marli Auras.
Há exatos 10 anos, em solenidade que teve encenação teatral criada e dirigida por Vicente Telles, nas comemorações do centenário do fim do conflito, tive o prazer de lançar o livro “Vicente Telles, o Mensageiro do Contestado”, da Editora Insular.
Trata-se de uma obra biográfica e histórica que resgata a vida de Vicente Telles (1931–2017), um dos maiores responsáveis pela preservação da memória da Guerra do Contestado, em músicas, folhetos, peças teatrais e eventos.
O livro demonstra como um cidadão comum transformou-se no principal divulgador da história do conflito, rompendo décadas de silêncio sobre um dos episódios mais dramáticos do Brasil.
Ao longo de mais de quatro décadas de pesquisas, Vicente Telles reuniu depoimentos de descendentes dos caboclos, visitou antigos campos de batalha, colecionou documentos, fotografias e objetos históricos, registrou canções populares e promoveu palestras, apresentações musicais e encenações teatrais sobre o Contestado.
Vicente Telles foi o grande responsável por romper o longo silêncio que envolveu a Guerra do Contestado, tornando-se um divulgador incansável da história dos vencidos. Sua atuação contribuiu decisivamente para despertar o interesse de pesquisadores, estudantes e jornalistas.

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