Ao defender PCC e CV como organizações terroristas, Flávio reforça laços com sua base, mas amplia dificuldades entre moderados e independentes.
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A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas produz efeitos que vão muito além do combate ao crime organizado. Neste momento, o principal fator está inscrito na equação política.
A medida até amplia instrumentos de cooperação internacional, facilita bloqueios financeiros, aumenta o monitoramento de transações e pode elevar os custos para empresas e instituições que, direta ou indiretamente, acabem associadas a redes utilizadas por essas organizações. O impacto econômico potencial existe, mas o efeito eleitoral é ainda mais relevante. Foi exatamente nesse terreno que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu atuar. E os motivos dele têm relação com o banqueiro preso Daniel Vorcaro e com uma estratégia que possa levá-lo ao segundo turno.
No segundo turno se resolve o que fazer.
Estratégia
Flávio transformou a classificação das facções em uma bandeira pessoal. Levou o tema ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, comemorou publicamente a decisão e buscou associar sua imagem a uma postura de enfrentamento duro contra o crime organizado.
O movimento ocorre em um momento particularmente delicado para sua pré-campanha presidencial. Após o desgaste provocado pelo episódio envolvendo o banco Master, o desafio imediato deixou de ser ampliar a candidatura e passou a ser preservar sua viabilidade política.
A escolha ajuda a reforçar vínculos com o eleitorado bolsonarista mais fiel, que tradicionalmente responde de forma positiva a discursos de endurecimento penal e combate ao crime. Também encontra receptividade em parcelas da direita não bolsonarista que enxergam o avanço das facções como uma das principais ameaças ao país e consideram insuficientes as respostas tradicionais do Estado brasileiro. Nesse segmento, a classificação das organizações criminosas como terroristas é frequentemente interpretada como demonstração de firmeza institucional.
Riscos
A estratégia, porém, tem custos. O governo Lula e setores da esquerda vão explorar o argumento de que a medida pode abrir espaço para pressões externas sobre o Brasil e criar questionamentos relacionados à “soberania nacional”.
Entre eleitores independentes e moderados, que costumam reagir com maior cautela a disputas envolvendo influência estrangeira, esse discurso lulista encontra terreno potencialmente favorável. O tema da segurança pública mobiliza emoções fortes, mas a percepção sobre autonomia nacional também possui peso relevante para parte do eleitorado.
Flávio deve perder esse eleitor moderado, que decide eleições, ao menos no primeiro momento, para consolidar seus votos entre o público mais à direita, impactado pelo áudio dele pedindo dinheiro banqueiro.
Contraste
Há um fato que precisa ser observado para confirmar essa estratégia. Em dezembro do ano passado, os senadores rejeitaram uma emenda ao projeto antifacção que equiparava facções criminosas e milícias ao terrorismo. A votação foi simbólica. Flávio Bolsonaro não estava presente no plenário nem participou da defesa da proposta, enquanto parlamentares como Carlos Portinho (PL-RJ) e Jorge Seif (PL-SC) discursaram favoravelmente à medida.
Na época, Flávio fez questão de não se envolver na discussão, exatamente para não perder esse eleitor moderado que depois o levou a empatar e até ultrapassar Lula.
Meses depois, o senador assume protagonismo internacional junto ao governo americano na defesa da mesma classificação que ignorou no Congresso Brasileiro. O contexto mudou e a estratégia também.
Objetivo
Em circunstâncias normais, uma candidatura presidencial procura simultaneamente preservar sua base e ampliar alcance entre eleitores independentes. O momento atual de Flávio demandou uma hierarquia diferente. Na crise, era preciso voltar aos princípios e solidificar a base antes de tentar avançar outra vez. Antes de pensar em vencer a eleição, a campanha precisa assegurar que continuará viva quando a disputa realmente começar.
Mas há dois detalhes importantes nisso. O primeiro é que recuperar eleitores que você já perdeu uma vez é muito mais difícil. E a tarefa dependerá ainda mais de um antipetismo generalizado entre eleitores independentes. Quando eles se depararem com um segundo turno entre Lula e Flávio, precisam ficar tontos com a possibilidade de votar no PT, ou não votarão em Flávio. Isso não é fácil de se construir, ainda mais com Lula sentado na cadeira de presidente e com tendência de crescimento em aprovação.
O segundo detalhe é que a candidatura de Flávio não suportará mais nenhuma quebra de confiança. Qualquer nova surpresa (como uma delação que o implique) enterra o projeto.

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