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Escala 6×1 acende alerta no agro

O Senado colocou a jornada no prato: fim da escala 6×1 reacende o debate sobre trabalho, custo e produção de alimentos.Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Depois das urnas, Brasília voltou a olhar para uma pauta com forte apelo social e alto impacto econômico: o fim da escala de trabalho 6×1.

O Senado retomou na terça-feira (6) a discussão da Proposta de Emenda à Constituição 221/2019, que acaba com o modelo em que o trabalhador atua seis dias e folga um. O texto também reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial.

A proposta está na pauta do Plenário em uma semana politicamente sensível. O primeiro turno fortaleceu a direita no Congresso, colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula na disputa presidencial e ampliou o peso do PL no Senado a partir de 2027. Mesmo assim, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, manteve o texto em discussão.

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A oposição tenta adiar o debate. Setores empresariais do comércio, da indústria, dos serviços e do agro se movimentam nos bastidores para evitar que a proposta avance sem ajustes. Uma das estratégias é esvaziar as sessões, já que uma mudança constitucional exige quórum alto: são necessários pelo menos 49 votos favoráveis em cada turno de votação.

A pauta tem apelo popular, mas, no agro, acendeu um alerta vermelho. Porque uma coisa é discutir jornada em setores com rotina mais previsível. Outra é aplicar a mesma régua a atividades que funcionam todos os dias, com animal, perecível, clima, colheita, abate, ordenha, transporte e agroindústria. No campo, o relógio não manda sozinho. Quem manda também é o ciclo da produção.

O agro não discute descanso, discute operação

É importante separar as coisas. O agro não está dizendo que trabalhador não merece descanso, qualidade de vida e proteção, essa discussão é legítima. O problema está em aprovar uma mudança estrutural na jornada, sem calibrar o impacto sobre setores que dependem de operação contínua.

Na suinocultura, na avicultura, na bovinocultura de leite, nos frigoríficos, nas granjas, nas agroindústrias, no transporte de perecíveis e em várias etapas da produção rural, a atividade não fecha a porta no sábado à tarde para reabrir na segunda.

Aves e suínos precisam de manejo diário. Vacas precisam ser ordenhadas. Frigoríficos trabalham com escala, sanidade e perecibilidade. Lavouras dependem de janela climática. Colheita não espera a agenda do Plenário, e é por isso que a discussão precisa sair do slogan.

Reduzir jornada pode ser uma pauta socialmente sedutora, mas, se mal desenhada, pode aumentar custo, reduzir margem, pressionar preços e ampliar a dificuldade de contratação em um setor que já enfrenta falta de mão de obra.

Santa Catarina sente primeiro

Em Santa Catarina, o alerta é ainda mais sensível. O Estado é potência em proteína animal, com cadeias fortes de aves e suínos, agroindústrias integradas, cooperativas, produtores tecnificados e presença relevante no mercado externo.

Essas cadeias funcionam como engrenagens. Quando uma regra muda no custo do trabalho, o impacto não fica isolado na folha de pagamento. Ele se espalha pela granja, pela integração, pela agroindústria, pelo frigorífico, pela logística e, no fim, pelo preço ao consumidor.

O presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos, Livânio Lorenzi, alertou para o aumento de custos operacionais e para a dificuldade de adaptação das empresas, especialmente na produção animal.

Segundo ele, a mudança pode obrigar empresas a contratar mais trabalhadores ou ampliar o pagamento de horas extras, elevando encargos em cadeias que já operam com margens bem apertadas.

O nó da mão de obra

A Frente Parlamentar da Agropecuária também vem tratando o tema com preocupação. O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion, afirmou que entidades da indústria e da agroindústria relataram risco de aumento de custos e dificuldade para preencher vagas caso a proposta avance sem adaptações.

“Uma conversa que a gente tem sempre com as nossas entidades sobre o 6×1 é a dificuldade de mão de obra. Os números que nos apresentaram, o pessoal da cana-de-açúcar, por exemplo, falava que ia precisar de pelo menos mais de 400 funcionários em cada usina. O pessoal dos frigoríficos disse que não tem como fazer o terceiro turno”, afirmou.

Essa é a pergunta que Brasília precisa responder antes de votar: de onde virá a mão de obra? O agro já convive com falta de trabalhadores. Estudo recente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil mostrou que a escassez de mão de obra passou a preocupar produtores mais do que custos, clima e preços.

Em algumas cadeias, não falta apenas vaga, falta gente disposta, treinada e disponível para ocupar a vaga. Lupion citou relatos de frigoríficos ligados à Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes e à Associação Brasileira de Proteína Animal sobre mais de 40 mil vagas abertas sem preenchimento nas linhas de produção de carne bovina, frango e suínos. Então fica a provocação: se hoje já falta trabalhador, criar mais turnos resolve ou aumenta o problema?

A conta pode chegar ao prato

A principal preocupação do setor é que o aumento dos custos trabalhistas seja repassado ao consumidor final, especialmente na cadeia de proteínas animais. “É óbvio que esse custo vai ser repassado para algum lugar. E hoje, infelizmente, quem vai pagar essa conta é o consumidor, que vai ter o produto mais caro lá na ponta”, disse Lupion.

Esse ponto precisa ser levado a sério. O Brasil já vive pressão sobre o preço dos alimentos. Carne, leite, ovos, frango, suínos, hortaliças e produtos processados dependem de cadeias longas, com custo de ração, energia, transporte, crédito, mão de obra e sanidade.

Quando se aumenta um custo estrutural sem discutir produtividade, transição e especificidade setorial, a conta não desaparece, ela anda e costuma chegar ao supermercado. É aí que a pauta trabalhista encontra a pauta alimentar. Não adianta defender jornada menor se o desenho da política terminar pressionando o preço da comida e reduzindo competitividade de quem produz.

Transição é a palavra-chave

A FPA defende tratamento diferenciado para setores considerados essenciais e uma transição gradual para adaptação das empresas. “As atividades essenciais e a possibilidade de a gente conseguir avançar numa transição mais organizada seriam pontos extremamente positivos”, afirmou Lupion. Essa deveria ser a base do debate. O ponto não é negar a necessidade de discutir jornada, o ponto é reconhecer que o Brasil produtivo não é uniforme.

Há setores em que a redução pode ser implementada com menor impacto, há outros em que a mudança exige escala de substituição, reestruturação de turnos, treinamento, novas contratações, revisão de custos e negociação coletiva.

Na agropecuária, a negociação coletiva é essencial. A realidade de uma granja no Oeste catarinense não é a mesma de um escritório em Brasília. A rotina de um frigorífico não é a mesma de uma loja em shopping. A operação de uma usina, de um laticínio ou de uma fazenda leiteira não cabe em uma regra genérica pensada para todos como se todos funcionassem igual. O Brasil precisa proteger o trabalhador, mas também precisa proteger a produção.

O risco de votar no calor eleitoral

O debate volta ao Senado no meio do segundo turno presidencial e isso aumenta a temperatura política da pauta. Para o governo, o fim da escala 6×1 é uma bandeira com forte apelo junto ao trabalhador. Para a oposição, votar o texto agora pode significar dar ao Planalto uma vitória política em plena campanha.

Para o setor produtivo, o risco é outro: que uma mudança estrutural seja decidida no embalo eleitoral, sem cálculo completo dos impactos sobre emprego, inflação, competitividade e cadeias de produção contínua.

A votação não pode virar disputa de narrativa, porque a realidade depois da promulgação não será narrativa. Será folha de pagamento, escala de turno, vaga aberta, custo de produção, preço no mercado e margem do produtor.

No agro, o debate precisa incluir transição, negociação coletiva, diferenciação para atividades essenciais, impacto inflacionário, custo de contratação e falta de mão de obra. O Senado diz que fará a discussão com responsabilidade, equilíbrio e respeito às diferentes perspectivas. Ótimo, é exatamente disso que essa pauta precisa.


Fonte: Clique aqui

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