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Divulgadas regularmente pelo Banco Central no final de cada mês o pacote de informações com as Estatísticas Monetárias e de Crédito é um desses banco de dados que permitem observar com base em dados reais e defasagem de um mês a quantas anda o financiamentos das atividades econômicas do mundo real no Brasil apontando o que nos espera. Este mês elas chamam a atenção quando dizem que a Taxa Total de Inadimplência cravou 4,9% a maior em 12 meses, com o atraso na pessoa física ficando em 5,8%.
O próprio texto do BC diz que no segmento de crédito com recursos livres, a inadimplência alcançou 6,4% do total da carteira com operações com pessoas jurídicas avançou, situando-se em 4,2%, e nas pessoas físicas atingindo 7,8%.
Os números também mostram uma curiosidade brasileira. Aqui, dos R$ 7,37 trilhões que o brasileiro tomou emprestado, R$ 4,64 trilhões foram feitos via CPF, enquanto apenas R$ 2,73 trilhões estão vinculados a um CNPJ.
Quadro de dificuldades
O número agregado esconde um quadro de dificuldades que os jornais diários e plataformas de informação econômica trombeteiam. O Brasil real e privado vai ter um 2027 de merda (com o perdão da palavra) porque depois de quatro anos estimulando a economia via crédito, o governo já sabe que a capacidade de absorção bateu no teto enquanto a de reserva bateu na laje.
E desde julho que as informações sobre crédito no Brasil só têm números ruins. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento dos brasileiros atingiu um nível recorde em julho de 2026, com 82% das famílias endividadas.
Compras menores nos supermercados cesta substituindo do carrinho – Divulgação
Cenário preocupante
A pesquisa permite uma revelação preocupante. Entre 2019 e 2022, o percentual de famílias endividadas cresceu de forma acelerada, passando de 64,1% para 78%. De 2023 a 2025, o endividamento ficou estável, próximo de 78%. Mas o bicho começou a pegar quando a Selic voltou a subir em 2025.
O mundo real nos diz que a situação é ainda mais grave entre as famílias de menor renda: 84,9% das com renda mensal de até três salários mínimos tinham 30,6% da renda comprometida com dívidas.
Sem comprar fiado
Quem compra fiado no Brasil de fato é a população de famílias que ganham até três salários mínimos. Para se ter um ideia do estrago na semana passada o próprio Banco Central divulgou uma informação muito estranha revelando que até no crédito consignado a inadimplência cresceu (chegou a 10,7%) embora o BC tenha se apressado que o número no caso do Crédito ao Trabalhador Privado pode estar errado pois a média crescente situa-se em torno dos 7,5% na média de 12 meses.
Pode ser. Mas não é razoável verificar que o empréstimo na modalidade de crédito consignado tenha inadimplência quando ele é descontado na folha. Mas no Brasil até consignado tem uma inadimplência de 1%, puxada por esse número estranho no Crédito do Trabalhador.
Tamanho da crise
Mas isso apenas mostra o tamanho da crise a que chegamos devido à oferta de crédito no Brasil, especialmente estimulada pelo governo Lula. Mirando na reeleição, o governo lançou medidas de crédito que já consumiram R$ 145 bilhões do Orçamento de 2026, focadas em financiamentos para motoristas de aplicativo, taxistas, caminhoneiros, programa Minha Casa, Minha Vida, socorro a agricultores e no Desenrolar, entre outras benesses.
Se se somar tudo, incluindo Nova Indústria Brasil, Move Brasil, Reforma Casa Brasil, MCMV, Programa Acredita, Brasil Soberano, Empréstimos às empresas aéreas, Tecnologia para produtores rurais e até o inusitado Desenrola para Adimplentes, chega-se a mais de R$330 bilhões. O governo não tem esse dinheiro. Ou seja, pediu emprestado nos bancos brasileiros emitindo títulos.
Consumidor com cada vez mais cartões de crédito nas mãos. – Divulgação
FGTS de bancos
O caso mais estranho foi o do empréstimo chamado de Crédito ao Trabalhador aos empregados do setor privado com carteira assinada. Isso inclui domésticos, rurais e contratos por Microempresas Individuais (MEIs).
O programa tem o modelo consignado, em que as parcelas são debitadas diretamente da folha de pagamento (contracheque) do trabalhador, com um limite de 35% de comprometimento do salário.
Juros de seu dinheiro
O trabalhador do setor privado tomar um empréstimo antecipando um dinheiro que está numa conta em seu nome no FGTS, autorizar o débito na sua filha de salário e pagar juros por isso já é um negócio estranho.
Mas o governo aceitou a proposta dos bancos que transformaram isso num recebível deles cobrando juros de até 5% ao mês. É um negócio tão bom que em pouco mais de um ano o total de operações chegou a 117 bilhões em julho. Isso não quer dizer que os trabalhadores receberam R$117 bilhões, mas que transferiram o crédito para os bancos de um dinheiro que era seu.
Endividamento
Tudo isso esgotou a capacidade de endividamento das famílias que na outra ponta nunca tiveram uma oferta de crédito via cartão tão grande. Em dezembro de 2025, o Brasil registrou 253,8 milhões de cartões de crédito ativos, segundo as estatísticas oficiais do Banco Central.
A oferta de crédito via cartão não vem dos bancos. Vem essencialmente das financeiras e empresas de crédito . São as chamadas sociedades de crédito, financiamento e investimento (SCFI), conhecidas como “financeiras”, instituições privadas que fornecem empréstimo e financiamento para aquisição de bens, serviços e capital de giro.
Carrinho de supermercados cada vez menores – Divulgação
Financeiras soltas
Claro que muitas das financeiras não ligadas a bancos fazem parte de conglomerados econômicos e operam como braço financeiro de grupos comerciais ou industriais. E foi isso que potencializou a crise.
Milhões de famílias passaram a usar o cartão sem qualquer controle. E isso acabou gerando uma explosão no número de endividados no SPC Brasil e no Serasa. Em julho, o total de pessoas com dívidas em atraso em bancos e nos cartões de crédito chegou a 27,2% do total. Os débitos com financeiras chegaram a 19,9% do total. Ou seja, 47,1% dos endividados têm alguma relação com cartão de crédito.
Potencial de consumo
Com esse quadro, o potencial de consumo se esgotou e agora está dando o rebote. Ou seja, mesmo com toda a oferta de programas do governo, a economia não responde. E talvez o maior exemplo disso seja o de programas como Reforma Casa Brasil que tem orçamento de R$ 40 bilhões e só conseguiu emprestar R$ 4 bilhões para reformas de residências.
Carrinho de supermercado. – Divulgação
Carrinho de compras
O outro é o Desenrola que em três meses renegociou R$ 44,1 bilhões em dívidas de famílias e empresas. No Desenrola Famílias, foram renegociados R$ 20,9 bilhões em cerca de 3,5 milhões de operações.
No mundo real, a consequência disso é que o varejo faz menos negócios. Vende menos a crédito e ainda tem a concorrência das bets. Dito de outra forma. Endividado, o brasileiro, mesmo com o crédito disponível, se atreve a assumir nova prestação e compra até mesmo menos comida.
O que explica por que todos os atacarejos agora têm carrinhos iguais aos dos supermercados e os supermercados têm cada vez mais carrinhos para pequenas compras como as lojas de conveniência. É um cenário de adaptações, mas para o varejo, isso é um cenário de morte.


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