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Crianças de Pernambuco transformam território e memória em glossário sobre racismo ambiental

Lançada pela ActionAid em parceria com o Giral, publicação reúne desenhos e relatos produzidos em comunidades de Glória do Goitá e Cabo

Por

Eduardo Scofi


Publicado em 01/06/2026 às 8:49
| Atualizado em 01/06/2026 às 8:52

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Crianças e adolescentes de Pernambuco transformaram vivências sobre água, saneamento, moradia e desigualdade ambiental em ilustrações que integram Pequenos grandes saberes: um glossário climático pelo olhar de crianças e adolescentes, publicação lançada pela ActionAid Brasil em parceria com o Giral. No estado, 116 participantes de Glória do Goitá e do Cabo de Santo Agostinho contribuíram com a construção do material a partir de oficinas realizadas nos territórios.

Embora o glossário reúna experiências de outros estados brasileiros, Pernambuco aparece como um dos principais pontos da publicação. A partir da escuta das comunidades, o projeto reuniu percepções sobre impactos ambientais que atravessam o cotidiano e transformou essas experiências em reflexão coletiva.



Ilustração de Robson Luis Silva – Divulgação/Giral

Quando o desenho também vira pergunta

No desenho, de acordo com Gabrielle Araújo, há dois cenários dividindo a mesma paisagem. De um lado, a falta de saneamento e a estrutura precária. Do outro, áreas verdes, espaço de lazer e ar limpo. No centro, uma menina observa os dois mundos e parece fazer uma pergunta silenciosa sobre a distância entre eles.

A ilustração criada pela estudante pernambucana passou a integrar a publicação e ajuda a traduzir o olhar construído durante as atividades. Para ela, a arte virou linguagem para falar do território onde vive e das desigualdades que percebe ao redor.

“Fiz um desenho sobre racismo ambiental e, com a atividade, aprendi que arte não é só pra enfeitar, é pra fazer pensar e lutar”, afirmou.



Ilustração de Gabrielle Araújo – Divulgação/Giral

Educadora e mãe da adolescente, Eveline Araújo, acompanhou esse processo de perto e viu na participação da filha um encontro entre aprendizado e expressão.

“Falar dessa construção como mãe e professora me traz muito orgulho. Ver minha filha participar de um projeto como este é um momento em que duas partes de mim se encontram: a educadora, que acredita no processo transformador da arte, e a mãe, que acompanha de perto cada percurso dela”, disse.

Giral fortalece vozes nos territórios pernambucanos

Fundado em Pernambuco, o Giral desenvolve iniciativas voltadas à educação integral e ao desenvolvimento humano com atuação em municípios do interior do estado. A organização trabalha a partir da educação popular, da cultura de paz e da valorização das identidades e dos territórios.

Na construção do glossário, o trabalho ajudou a aproximar o debate sobre racismo ambiental da realidade vivida pelas crianças e adolescentes pernambucanos. Para o fundador do Giral, Everaldo Costa, a força do projeto está justamente em partir da escuta das comunidades.

“Esse processo foi muito importante porque partiu da escuta das crianças e adolescentes, mas alcançou também suas famílias e comunidades. Ao nomear situações como falta de água, saneamento precário e calor extremo, elas passam a compreender que aquilo que vivem não é algo natural, mas expressão de desigualdades históricas”, afirmou.



Ilustração de Ester Deyvila Alves – Divulgação/Giral

Palavras que nascem da experiência

A especialista em Educação e Infâncias da ActionAid Brasil, Carolina Silva, explica que a publicação nasceu ao longo de três anos de trabalho dentro das comunidades.

“No primeiro ano, a gente falou sobre água; no segundo, sobre saneamento básico; e, no terceiro, sobre habitação. No acúmulo desses três anos, percebemos que as crianças tinham necessidade de dizer como entendiam esses termos e como eles afetam a sua vida. E a gente precisa ouvi-las, que elas têm muito a dizer”, destacou.



Ana Beatriz Albuquerque – Divulgação/Giral

No glossário, as palavras ganham o peso de quem vive a realidade que descreve. Elas surgem acompanhadas de desenhos, memórias e perguntas que atravessam os territórios e transformam experiências cotidianas em voz coletiva.

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