Governos costumam evitar comentar eleições de meio de mandato de outro país, ao contrário do que fazem quando se elege um presidente. Por isso, as reações mais reveladoras desta quarta vieram menos das notas oficiais e mais das manchetes, dos adversários e de quem tem algo a ganhar ou a perder.
Dá para resumir em três leituras: alívio, oportunidade e inquietação.
Alívio
A manchete do Kyiv Independent foi “Democratas assumem o controle do Congresso, golpe em Trump, possível reforço para a Ucrânia”. Antes da eleição, o presidente Volodymyr Zelensky já dizia que o apoio bipartidário em Washington estava mais forte do que no último ano e meio.
Entre no grupo
Na Europa, o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, saudou uma “vitória histórica” e afirmou que a cooperação com Washington não muda e que Berlim falará com os dois partidos.
O premiê espanhol, Pedro Sánchez, viu no resultado o “desmoronamento” da onda de extrema-direita. O premiê norueguês, Jonas Gahr Støre, disse que surgem na política americana vozes mais próximas dos europeus em clima e política externa.
O sul-africano Cyril Ramaphosa falou em “uma nova era nas relações mundiais”. O político francês Raphaël Glucksmann celebrou uma “vitória da democracia e da decência”, mas alertou que Trump segue com muita influência.
Oportunidade
Para a China, a eleição é “assunto interno” dos EUA, segundo a porta-voz Mao Ning, e Pequim quer uma “relação estratégica construtiva”. Analistas ouvidos pela Reuters acham que o governo chinês usará a fragilidade política de Trump em negociações comerciais, com a trégua entre os dois países vencendo em janeiro.
O mesmo vale para parceiros que negociam sob ameaça de tarifas: Coreia do Sul e Índia ganham, segundo especialistas, argumentos para adiar promessas de investimento nos EUA. O Canadá disse que a estratégia de negociação não muda, mas o governador de Ontário, Doug Ford, afirmou que o país ganha “um pouco mais de alavancagem”.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, disse que é preciso “esperar para ver”. E o ex-diplomata indiano Rajiv Bhatia lembrou que uma vitória democrata “não torna Trump necessariamente mais acomodado”.
Inquietação
Em Moscou, o porta-voz Dmitri Peskov chamou o resultado de “assunto interno” e disse esperar que Trump mantenha os “esforços de paz”, com nova rodada trilateral sobre a Ucrânia “muito em breve”.
O industrial russo Alexander Shokhin avisou, antes da votação, que um Congresso democrata poderia se opor a “praticamente qualquer iniciativa” de alívio de sanções. A imprensa estatal foi mais direta: “Bruxelas, prepare-se: depois da derrota republicana, a ira de Trump cairá sobre a Europa.”
Em Jerusalém, o premiê Benjamin Netanyahu, que apoiou abertamente os republicanos e perdeu a maioria no Parlamento na semana passada, ficou em silêncio.
Seus rivais, Yair Golan e Yair Lapid, aproveitaram: o resultado mostraria “o quão tóxico” ele se tornou entre democratas e republicanos. Um professor da Universidade de Tel Aviv prevê o Congresso mais adverso a Israel da história.
E, na véspera da votação, Trump prometeu suspender US$ 4 bilhões de ajuda anual a Israel, para tirar dos democratas um “mau argumento”, segundo a Reuters.
No Irã, o presidente do Parlamento e principal negociador, Mohammad Ghalibaf, escreveu que “os americanos disseram NÃO à guerra” e que Teerã endossa a mensagem, e advertiu que, se o governo dos EUA a ignorar, o “não” virá com um “pesadelo”.
O próprio Trump admitiu que a guerra pesou, porque os eleitores não estavam prontos para “a consequência de curto prazo do preço da gasolina”. Alguns analistas lembram, porém, que ler a derrota como fraqueza pode convidar a uma nova escalada.
O que quase todos concluíram
Quase todos chegaram à mesma conclusão: no curto prazo, muda pouco. Trump continua com o poder do veto e com o controle sobre comércio, imigração e operações militares, e é na política externa que o Congresso pesa menos. Um presidente enfraquecido em casa pode ficar mais cauteloso ou procurar vitórias lá fora; a eleição mostra que perdeu votos, não que perdeu poder. A leitura é minha.
O recado para a ONU
O teste mais imediato está em Nova York. O mandato de António Guterres termina em 31 de dezembro, e a escolha do sucessor exige nove votos no Conselho de Segurança e nenhum veto de membro permanente.
Na sétima votação informal, em 30 de outubro, a costa-riquenha Rebeca Grynspan teve 11 votos de apoio e 4 contrários, a melhor marca até aqui. A emiradense Lana Nusseibeh, que entrou na disputa há poucos dias, teve 7 a favor e 6 contra, com 2 sem opinião.
Dessa vez, a cédula não distinguia os votos dos permanentes, então não se sabe se há vetos. Na votação anterior, todos os candidatos haviam recebido ao menos um voto contrário de membro permanente. O turco Feridun Sinirlioğlu entrou em 30 de outubro, e a próxima votação colorida deve sair nas próximas semanas.
Nesse cenário, o Wall Street Journal revelou que o governo Trump sondou Viktor Orbán, ex-premiê húngaro derrotado em abril, para disputar o cargo, com apoio presumido de Rússia e China, e que um funcionário do Departamento de Estado estimou 8 a 10 votos.
O anúncio, segundo a reportagem, ficaria para depois das midterms. Mas nenhum país o indicou formalmente, e nem Moscou nem Pequim confirmaram apoio. A França, que tem poder de veto, já disse que o cargo não é “prêmio de consolação” para um líder derrotado nas urnas.
Para o chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, Orbán usaria no cargo suas “habilidades de vetar e chantagear”.
A eleição americana não muda a conta do Conselho, já que o Congresso não vota. O que muda é o capital político de Washington: uma Casa Branca enfraquecida e um Congresso democrata têm menos espaço para empurrar um candidato improvável, e a oposição em Paris, a veto, fica mais difícil de contornar.
É minha leitura. Para o Brasil, que há décadas defende a reforma do Conselho, a escolha do secretário-geral, com uma candidata latino-americana na frente, é um teste de coerência.
O que observar
Nas próximas duas semanas: a COP31 em Antalya (a partir de 9/11), a reunião da Apec em Shenzhen (18 e 19/11), onde Moscou diz estar em discussão um encontro entre Putin, Trump e Xi (sem confirmação), a nova rodada de negociações sobre a Ucrânia, para a qual os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner devem viajar a Abu Dhabi na semana que vem, e a próxima votação do Conselho de Segurança.
Resumindo
O mundo respirou, mas não relaxou. Cada capital leu a eleição conforme sua conveniência: Kiev viu esperança, Pequim viu espaço, Moscou viu risco e Jerusalém, solidão. O ponto em comum é que ninguém vai esperar a posse do novo Congresso, em 3 de janeiro, para se mexer.

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