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No dia em que completa 80 anos, próximo 22 de abril, o cirurgião pernambucano Rui Ferreira estará onde passou grande parte da vida: dentro de um centro cirúrgico. A data marca o início da 44ª Missão Humanitária do Instituto SOS Mão Criança, no Recife. É a primeira etapa do projeto “80 anos – 80 mãos”, iniciativa que pretende realizar 80 cirurgias em crianças com malformações nos membros superiores.
A missão acontece entre 22 e 24 de abril e reunirá uma equipe multidisciplinar coordenada pelo médico. Nessa etapa inicial, cerca de 80 crianças devem passar por consultas e avaliações especializadas. A partir desses diagnósticos, 20 cirurgias serão realizadas durante o próprio período da missão.
A proposta é completar 80 procedimentos em quatro missões, ao longo de 2026.
Para a missão de abril, o instituto já fechou o agendamento de pacientes, mas ainda está aberta a marcação de novos pacientes para atendimento no serviço, que opera ao longo de todo o ano.
O Instituto SOS Mão Criança atende crianças até 12 anos de idade com malformação congênita nos membros superiores.
Para Rui Ferreira, celebrar o aniversário trabalhando não é sacrifício; é coerência com uma trajetória inteira dedicada à medicina. “A mobilidade física pode diminuir, porém o desejo continua. Tenho que comemorar fazendo o que gosto e o que sei.”
Da descoberta da microcirurgia às missões humanitárias
Natural de Sertânia, no Sertão de Pernambuco, Rui Ferreira acumula 56 anos de formação médica e uma carreira que atravessa diferentes momentos da evolução da cirurgia da mão.
Ele lembra que iniciou a especialidade numa época em que a microcirurgia ainda dava os primeiros passos.
“No início dos anos 1980, a microcirurgia começava. Era a época das descobertas. O pós-operatório de uma microcirurgia era quase uma prova de Hércules”, recorda.
Parte dessa formação ocorreu no exterior, especialmente na França, onde conviveu com pioneiros da área. Uma das experiências que mais o marcou foi acompanhar novas técnicas de monitoramento cirúrgico e métodos experimentais utilizados na época.
“Eram tantas coisas novas que não tinham nome; era necessário apontar para elas”, diz, ao citar uma passagem de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, para descrever o clima de descoberta científica daquele período.
O Instituto SOS Mão Criança atende crianças até 12 anos de idade com malformação congênita nos membros superiores – DIVULGAÇÃO
O início das missões
Em 1998, foi inaugurado o SOS MÃO Recife. “Na minha formação, depois da França, fui para a China, Xangai, Japão e Tóquio, onde aumentou minha admiração pelos acometimentos congênitos, com os quais já convivia na minha formação de cirurgia plástica, ao tratar fissuras palatinas, fissuras faciais e o mais comum, fissura labial”, relata Rui Ferreira.
Ele destaca que, em decorrência do evento nuclear da 2ª Guerra Mundial, Japão e Tóquio, entre outros países circunvizinhos, ainda sofrem com as mutações genéticas. “Voltando para o Recife, procurei fazer palestras sobre as malformações genéticas nos membros superiores e as lesões dos nervos periféricos. Em 2003, para comemorar 10 mil mãos operadas no hospital, resolvemos fazer uma missão para esvaziar minha fila de espera no hospital público em que trabalhava.”
Para viabilizar o projeto, convidou especialistas internacionais e promoveu um concerto beneficente com o pianista Arthur Moreira Lima, batizado de Concerto para 80 mãos.
A iniciativa acabou dando origem ao modelo de missões que o médico levaria também para outros países.
Experiência internacional
Ao longo da carreira, Rui Ferreira participou de 120 missões humanitárias, sendo 46 no Brasil e 74 no exterior. Entre os destinos, estão países como Egito, Irã, Jordânia, México, Equador e Colômbia, além de regiões palestinas como Gaza, Nablus, Ramallah e Hebron.
Em muitos desses locais, além de operar pacientes, o trabalho envolveu também formação de médicos locais.
Para ele, ensinar é parte essencial da prática médica. “Feliz é aquele que ensina, pois aprende”, diz, ao citar a escritora Cora Coralina. “Aprendi no Japão que a repetição leva à prática, e a prática leva à perfeição.”
Em alguns casos, o impacto dessas missões se estendeu por décadas. Na Colômbia, por exemplo, o grupo de médicos que ele ajudou a formar criou posteriormente uma organização não governamental (ONG) própria dedicada a organizar missões semelhantes. “Foi um sonho meu que acabou se tornando realidade.”
O reconhecimento internacional
Em 2025, Rui Ferreira recebeu o título de Pioneiro Mundial da Cirurgia da Mão, concedido pela Federação Internacional das Sociedades de Cirurgia da Mão. Ele foi o oitavo brasileiro a receber a distinção.
Para ele, o reconhecimento é consequência de uma inquietação permanente ao longo da carreira. “O não aceitar o mais fácil acaba recompensando.”
O que ainda o motiva
Mesmo após décadas de atuação e centenas de cirurgias, o médico afirma que continua movido pelo mesmo princípio que orientou sua carreira desde o início. “Se com a experiência e a ajuda material não fizermos, quem fará?”, questiona. Quando perguntado sobre o que o mantém ativo aos 80 anos, a resposta é direta: “Curto e grosso? A vida não para.”
Serviço:
44ª Missão Humanitária do Instituto SOS Mão Criança
22 de abril – consultas e avaliações já agendadas
Instituto SOS Mão Criança
Rua Joaquim de Brito, 228 — Boa Vista
Internamentos e cirurgias – Hospital SOS Mão e Ortopedia
Rua Minas Gerais, 147 — Ilha do Leite
O Instituto SOS Mão Criança mantém atendimento durante todo o ano. Famílias que não conseguirem vagas para as crianças nesta missão podem entrar na lista de espera para futuras edições. Agendamentos: 81 3087-9595.

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