O Brasil está entre os países que mais podem se beneficiar da disputa econômica entre Estados Unidos e China pelo controle do fornecimento de minerais estratégicos. Em meio à corrida global por matérias-primas utilizadas na fabricação de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, armamentos e tecnologias de inteligência artificial, as duas potências ampliam investimentos em projetos de mineração e buscam garantir acesso a reservas fora de seus territórios.
Uma análise publicada pela revista britânica The Economist aponta o Brasil, ao lado da República Democrática do Congo e do Cazaquistão, como um dos principais destinos dessa disputa. Segundo a publicação, cinco países, incluindo ainda Zâmbia e Canadá, concentraram quase 80% dos investimentos combinados dos governos e empresas americanos e chineses em mineração no exterior no ano passado.
Terras raras brasileiras atraem os Estados Unidos
Um dos principais exemplos dessa movimentação está em Goiás. Em setembro, a empresa americana USA Rare Earth concluiu a aquisição da mineradora Serra Verde, responsável pela operação da mina Pela Ema, em Minaçu. A companhia é atualmente a única produtora comercial de terras raras no Brasil e possui relevância estratégica por fornecer elementos utilizados em tecnologias avançadas.
De acordo com a The Economist, a operação faz parte de um esforço dos Estados Unidos para ampliar sua participação no setor e reduzir a dependência da cadeia de suprimentos controlada pela China. O investimento americano na estrutura poderá alcançar aproximadamente US$ 5 bilhões, considerando a aquisição e os recursos previstos para expansão do empreendimento.
A presença chinesa também cresceu no Brasil. Levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China aponta que os investimentos chineses no país chegaram a US$ 6,1 bilhões em 2025, alta de 45% em relação ao ano anterior. A mineração recebeu US$ 1,76 bilhão, mais de três vezes o valor registrado em 2024, consolidando o setor como uma das principais frentes de interesse dos investidores chineses.
Corrida global por minerais
A disputa ganhou força com a crescente demanda por minerais utilizados na produção de semicondutores, baterias, sistemas de defesa, turbinas eólicas e veículos elétricos. As restrições chinesas às exportações de terras raras, adotadas em 2025, também levaram Washington a acelerar acordos e investimentos para diversificar seus fornecedores.
Segundo a revista, empresas e órgãos ligados ao governo americano destinaram US$ 15,4 bilhões a projetos de mineração no exterior em 2025. No mesmo período, mineradoras estatais chinesas investiram mais de US$ 30 bilhões fora do país.
O movimento também envolve a República Democrática do Congo, rica em cobre e cobalto, e o Cazaquistão, que possui reservas de tungstênio, mineral utilizado na fabricação de equipamentos militares e tecnologias industriais.
A estratégia das duas potências, porém, não significa que os países produtores precisem escolher um lado. A avaliação da The Economist é que governos com reservas minerais relevantes podem aproveitar a concorrência para negociar melhores condições, atrair investimentos e ampliar sua participação nas cadeias internacionais de produção.
Desafio é agregar valor à produção
Apesar das oportunidades, a expansão da mineração também apresenta desafios. Um deles é evitar que o Brasil se limite à exportação de matérias-primas sem desenvolver etapas mais avançadas de processamento industrial.
A transformação dos minerais em produtos de maior valor agregado pode ampliar a geração de empregos, estimular a transferência de tecnologia e fortalecer a indústria nacional. O governo brasileiro também discute mecanismos para incentivar o processamento desses recursos dentro do país.
Em outubro, o Banco Mundial anunciou uma meta de multiplicar por cinco seu financiamento para o setor de minerais críticos, com previsão de alcançar US$ 19 bilhões entre 2026 e 2030. A iniciativa busca apoiar projetos, infraestrutura, formação profissional e desenvolvimento de cadeias produtivas nos países participantes.
A disputa entre Estados Unidos e China abre, portanto, uma janela de oportunidades para o Brasil. O desafio será transformar o interesse internacional por suas reservas minerais em investimentos duradouros, desenvolvimento industrial e benefícios econômicos para o país.

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