Previsão inicial de um ano foi ultrapassada devido a achados arqueológicos; permissionários relatam perdas de até 80% no faturamento
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Planejada para durar cerca de um ano, a restauração do Mercado de São José, na área central do Recife, arrasta-se desde o início das intervenções internas em janeiro de 2024.
Com o prédio centenário parcialmente interditado e os comerciantes de artesanato transferidos para um anexo provisório, a queda na circulação de clientes tem provocado severos prejuízos aos permissionários.
A prefeitura do Recife, através da Autarquia de Urbanização do Recife (URB), à reportagem do Jornal do Commercio justificou o atraso das obras nos achados arqueológicos no local.
Queda nas vendas
Vendedores de pescados, carnes, plásticos e serviços de alimentação que permanecem na estrutura histórica relatam um cenário de esvaziamento.
“Eu tenho 58 anos de comércio, cheguei com 10 anos ajudando meus pais, mas eu nunca vi um sofrimento tão grande quanto o que nós estamos passando agora. Principalmente porque não teve nem divulgação”, afirma Rute Miranda, comerciante de pescados.
“Eu despachei uma cliente na semana passada e ela fazia um ano que estava comprando na Encruzilhada, porque não sabia que estava aberto. E muitas pessoas mesmo não sabem que está aberto, porque não divulgaram o nosso comércio. A gente tem que vir porque infelizmente a gente vive do Mercado de São José. Minha casa é o Mercado de São José”, lamenta.
O comerciante Joel Gomes reforça o impacto na rotina de vendas: “Desde que começou essa obra aí, os mais prejudicados somos nós que trabalhamos aqui dentro, porque fechou aí e matou o movimento. Não está fácil. Quem vende peixe, se vendia 100 kg, está vendendo 20, 30”.
A distância do imóvel de 150 anos também afeta o setor de artesanato. Dos trabalhadores do segmento, 46 foram alojados no anexo provisório na Rua da Praia e 54 optaram por receber um auxílio mensal de R$ 3 mil enquanto durarem as intervenções.
“O turista que vem para o mercado vem ver a estrutura toda de ferro do mercado do século XIX, e daí aproveita e compra o artesanato, que é o nosso produto. E nós estamos deslocados para esse casarão ao lado”, aponta José Rubens, comerciante de artesanato há 65 anos.
O anexo provisório tem uma entrada pela Rua da Praia, logo atrás do Mercado de São José, e outra entrada pelo Cais de Santa Rita. Entretanto, neste logradouro, existe uma zona azul para carregamento e descarregamento de caminhões. O fluxo de veículos, de acordo com os comerciantes, acaba atrapalhando a visibilidade da entrada para os turistas que vêm daquela região.
Inicialmente, os permissionários do artesanato deveriam ficar um ano no anexo e, em seguida, retornar ao mercado, ao passo que os demais comerciantes ocupariam o anexo para ser realizada a reforma da segunda parte do Mercado. Entretanto, isso não aconteceu.
“Viemos para cá provisoriamente e ficou acertado dentro de um ano concluir, só que de um ano já vamos para três. Eu fico triste porque estou com 81 anos passando por esse vexame, superando as dificuldades porque, apesar da idade, eu ainda tenho despesas. Eu estou doido para que, enquanto eu ainda tiver vivo, voltar para lá”, lamenta José Rubens.
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Motivos do atraso
Em nota, a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) informou que a obra envolve R$ 27 milhões em investimentos — dos quais R$ 20 milhões vêm do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) — e atribuiu a extensão do prazo a intercorrências técnicas e alterações de projeto:
- Escavações arqueológicas: em março de 2024, a identificação de ossadas humanas e estruturas do antigo Mercado da Ribeira, de uma igreja e de um cemitério exigiu o acompanhamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). As pesquisas no local foram concluídas em fevereiro de 2026.
- Alterações no projeto: mudanças solicitadas pelos próprios permissionários para a disposição dos boxes, área de alimentação e mezanino foram aprovadas pelo Iphan em 2026, demandando novos projetos executivos.
- Cronograma atual: a URB finaliza a estrutura metálica do mezanino e os serviços de restauro da fachada enquanto aguarda parecer formal do Iphan para oficializar a nova data de conclusão da reforma.
A URB afirma que o novo projeto, com as mudanças solicitadas pelos permissionários, deve ser entregue no dia 30 de agosto, mas que, apesar do prazo, as intervenções na estrutura metálica do mezanino seguem paralelamente.
“Após essa etapa, será iniciada a execução da estrutura de concreto. No momento, estão em andamento serviços de recuperação das fachadas e da estrutura metálica do pavilhão norte, restauro e confecção de novas esquadrias de madeira, instalação das estruturas de fixação de calhas e ornamentos, recuperação dos ornamentos da fachada e execução da estrutura metálica do novo mezanino do pavilhão norte”, afirma a nota.


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