Problemas estruturais agravados pela desarticulação entre os municípios atrasam o desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife
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São quatro milhões de pessoas conectadas em uma malha de serviços e cotidianos comuns. A Região Metropolitana do Recife (RMR), formada por 14 municípios e responsável por mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) de Pernambuco, poderia puxar de maneira mais consistente o desenvolvimento estadual. Mas para tanto, falta uma articulação duradoura, demandada há décadas, sem a qual as prefeituras continuam trabalhando isoladamente, ou desprovidas da integração ideal para o encaminhamento de soluções do interesse de toda a população metropolitana.
Em debate na Rádio Jornal, semana passada, especialistas em desenvolvimento urbano concordaram que a desarticulação, além de atrapalhar a vida dos habitantes das cidades da RMR, pode ser um fator de entrave ao desenvolvimento do estado inteiro – uma vez que muitas oportunidades poderiam surgir através da resolução de questões estruturais na região metropolitana, como o transporte coletivo, por exemplo, um gargalo simbolizado pelo sucateamento do Metrô do Recife. Trata-se do ponto crucial em um contexto de mobilidade crítica, sem a oferta de alternativas à população – que é obrigada, por falta de opções, a embarcar no risco das motos de aplicativos, cuja disseminação vem provocando a lotação das emergências hospitalares.
Para o professor Maurício Pina, a concessão aguardada do Metrô à iniciativa privada deve levar em conta a expansão das linhas, para maior alcance, além da melhoria da qualidade do serviço para os usuários. Sem o planejamento da expansão, a transmissão da gestão pode não surtir o efeito desejado. O que seria nova mostra da desarticulação e do desapreço pelo planejamento em Pernambuco, algo criticado pelos especialistas há décadas – por ironia, num estado que já foi referência nacional e mundial em planejamento, nas décadas de 1970 e 1980, com a Fidem, órgão estadual que indicava os rumos do desenvolvimento pernambucano.
A professora Edivânia Torres ressaltou, no debate, que o Grande Recife sofre com ações fragmentadas e paliativas, em vez de se cuidar dos problemas estruturais. A descontinuidade administrativa, vício da política brasileira que também se observa por aqui, talvez em maior grau que outros estados, faz com que haja um déficit de visões para o Estado, desvinculadas do imediatismo dos governos e seus limitados – e limitantes – mandatos.
Herdeira da tradição da antiga e reconhecida Fidem, a Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas (Condepe/Fidem) estava representada no debate por seu diretor-presidente, Diogo Bezerra. O gestor defendeu maior grau de alinhamento entre os entes federativos, com o objetivo de garantir a viabilização das políticas públicas do interesse coletivo. “Se o município não está organizado junto com o Estado para poder fazer proposições e obter recursos na construção da habitação, a gente acaba perdendo esse recurso”, afirmou, se referindo às habitações populares.
Os municípios que compõem a RMR têm, cada um, suas pautas prioritárias para serem viabilizadas, com planejamento e captação de recursos. Mas é cada vez mais notória a urgência de articulação, com entendimento político capaz de separar as diferenças e direcionar a gestão que se faz isoladamente para o desenvolvimento da Região Metropolitana, acelerando, assim, a chegada do futuro para o cidadão pernambucano.

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