Com a voz em frangalhos, o presidente Lula se refugiou na Granja do Torto para um descanso não apenas vocal, mas de ouvido e físico mesmo depois da festa dos 81 anos no Palácio da Alvorada. E como é um ser gutenberguiano, passou o retiro lendo nos jornais uma tempestade de notícias sobre o que vai precisar fazer para cumprir a promessa que fez no discurso da vitória no último domingo (25) quando prometeu fazer o que chamou de seu melhor governo.
A promessa alimenta as expectativas de gente de boa-fé na área da economia de que presidente tenha percebido que a inflação e o custo de vida serão questões centrais nesse novo governo e isso terá que ser enfrentado.
Buscando sinais
Nas dezenas de artigos e entrevistas, essas pessoas reconhecem que o governo de Lula não prometeu ajustes e, portanto, não está obrigado a fazer reformas estruturais. E todos concordam que isso será inevitável na prática porque o estouro das contas já se materializou em 2026 e será uma realidade em 2027.
Mas a pergunta sem resposta é: Lula deseja fazer isso! E se desejar fazer, quem vai cuidar da tarefa? Sem nenhum sinal do presidente, a busca de um nome virou pauta nacional, com cada interessado sugerindo nomes.
Ministro da Fazenda
Entretanto, tem uma coisa que é fundamento no jogo. Que mandato o presidente dará ao ministro da Fazenda encarregado de lidar com esse problema?
E qual será o sinal que o presidente da República dará para ser lido pelo mercado, embora o presidente se esforce para dizer que não governa pautado nele?
Todos comprados
O problema é que essa instituição sem rosto primeiro chama o mercado financeiro, que ainda lambe as feridas dos prejuízos da aposta em Flávio Bolsonaro.
Passado o desastre, já se sabe que pela primeira vez em décadas essa instituição ficou tão assustada pelo volume considerável de promessas feitas por Lula durante a campanha que não cotou em preços o que Flávio também estava prometendo.
Todos acreditaram que os números do primeiro turno seriam suficientes para, com apoio dos demais candidatos, confirmar os números de 4 de outubro e foram dormir no domingo 25 de cabeça inchada. E a conta ainda não fechou.
Banho de sangue
Portanto, o que se chamou de “banho de sangue” no mercado financeiro de segunda-feira, 26, com grandes prejuízos em praticamente todos os tipos de fundos, no ato contínuo, e voltando à realidade, consolida a visão pessimista do que viria com Lula 4, que se aguçou ainda mais com a fuga de Flávio.
Lula venceu na política e o mercado não percebeu. Janones ajudou muito, o PT ressurgiu nas ruas, mas Lula sabe que foi o profissionalismo de Camilo Santana, Rui Costa e Rafael Fontelles que definiu as ações estratégicas. E isso o mercado não leu, embora as presenças deles nas articulações fossem visíveis.
Ser analogico
Mas isso é passado. O presidente sabe que não pode repetir 2022, quando esqueceu os partidos que o ajudaram já na partida com aquela PEC para o orçamento de 2023 e pagou caro pela visão analógica da nova política digital.
O quadro mudou, o kit de produtos sociais que ele entregou na campanha fiado terá que ser pago com fatores que ele terá que precificar. Quando a Reforma Tributária, aprovada sem bases de dados robustas, vai custar já em 2027 em termos de frustração de receitas?
Fator Trump
Como vai se comportar o mercado de petróleo que o obrigou a gastar R$ 23,5 bilhões para não criar a sensação de descontrole que matou as chances de Bolsonaro em 2022 e tem Donald Trump, que custa caro não nas ações do Itamaraty, mas em todos os ministérios da área econômica.
Curiosamente apesar de todos os, porém, todas as advertências e todas as queixas sobre a falta de um sinal, uma linha de esperança pauta as conclusões de que Lula não será o Lula da campanha e que algum grau de racionalidade seja sinalizado.
Alckmin x Boulos
No fundo parece claro que o mundo empresarial e financeiro quer um Lula mais Alckmin e menos Boulos. Resta saber se, ao voltar para a rotina dos últimos dias do Lula 3, o que o presidente fundamentou para o Lula 4.
O presidente é reconhecido mesmo pelos adversários e empresários pela capacidade de processamento de uma enorme quantidade de informações políticas para resumir a essência. Ele fez isso a vida toda e deve viajar para a reunião da COP em Antália, na Turquia, pensando em mais coisas do que apenas o aquecimento global.
E deixar postulantes do seu campo político cada vez mais angustiados sobre o que vai sobrar em termos de cargos já que o Centrão que fechou com Flávio, agora ama Lula de paixão.

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