Com a proximidade do Enem 2026, que acontecerá nos dia 8 e 15 de novembro, a redação continua sendo uma das etapas que mais exigem preparação dos estudantes. Diante de temas inesperados ou considerados difíceis, é comum que os candidatos tenham dificuldade para organizar as ideias e encontrar argumentos para defender um ponto de vista. No entanto, propostas aparentemente distantes podem apresentar problemas sociais semelhantes e permitir o uso de estratégias argumentativas parecidas.
A chave está em compreender que o desafio não é apenas conhecer o assunto, mas identificar o que a proposta exige, delimitar o problema e construir uma argumentação coerente. Essa habilidade permite ao estudante reconhecer estruturas recorrentes sem depender da memorização de textos prontos.
De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a redação do Enem exige um texto dissertativo-argumentativo, no qual o participante deve defender um ponto de vista com argumentos consistentes e apresentar uma proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Temas diferentes, estruturas semelhantes
Uma maneira de facilitar a preparação é agrupar temas de redação de acordo com os problemas que eles apresentam. Questões relacionadas à invisibilidade social, à desigualdade de acesso a direitos, à desinformação e à exclusão podem compartilhar mecanismos que ajudam a explicar por que determinadas situações persistem.
Isso não significa que os temas sejam iguais ou que possam ser desenvolvidos com os mesmos argumentos. A semelhança está na lógica da análise: identificar o problema, explicar suas causas, discutir suas consequências e propor caminhos para enfrentá-lo.
1. Invisibilidade social e falta de reconhecimento
Temas relacionados à valorização de grupos sociais, ao preconceito e à invisibilidade de determinadas parcelas da população podem ser analisados a partir de uma estrutura semelhante.
Exemplos de propostas para treinar:
- Os desafios para combater o preconceito contra pessoas idosas no Brasil;
- A invisibilidade do trabalho de cuidado na sociedade brasileira;
- Os obstáculos para o reconhecimento das contribuições de comunidades tradicionais.
Em situações como essas, o estudante pode investigar como estereótipos, falta de representatividade e ausência de políticas públicas contribuem para a manutenção do problema.
A argumentação, entretanto, precisa considerar as particularidades de cada grupo. O preconceito etário, a desvalorização do trabalho de cuidado e a falta de reconhecimento de comunidades tradicionais não são fenômenos idênticos.
2. Desigualdade de acesso a direitos
Outro conjunto reúne temas que discutem as dificuldades enfrentadas por diferentes grupos para acessar direitos e serviços essenciais.
Exemplos:
- Os desafios para ampliar o acesso à saúde no Brasil;
- Os obstáculos à democratização do acesso à cultura;
- A desigualdade de oportunidades educacionais no país.
Nesses casos, uma linha de raciocínio possível é analisar como as diferenças socioeconômicas, a distribuição desigual de recursos e as falhas na implementação de políticas públicas podem limitar o acesso a direitos.
O estudante pode utilizar essa estrutura para organizar a discussão, mas deve apresentar informações e exemplos relacionados especificamente ao tema proposto. No caso da saúde, por exemplo, a análise pode envolver a distribuição de serviços e profissionais; na cultura, pode abordar o acesso a equipamentos culturais e atividades artísticas.
3. Desinformação e dificuldades de acesso à informação
Propostas sobre notícias falsas, educação midiática e circulação de conteúdos nas redes sociais também podem compartilhar uma estrutura argumentativa.
Exemplos:
- Os desafios para combater a desinformação nas redes sociais;
- A importância da educação midiática na formação dos cidadãos;
- Os impactos da circulação de informações falsas na sociedade brasileira.
Uma possibilidade de abordagem é discutir a dificuldade de verificar informações, a velocidade de compartilhamento de conteúdos e a necessidade de desenvolver o pensamento crítico.
A semelhança entre esses temas está na discussão sobre como as pessoas recebem, interpretam e compartilham informações. Ainda assim, é necessário observar o comando da proposta: um tema pode exigir a análise das causas da desinformação, enquanto outro pode priorizar a formação dos cidadãos para o consumo crítico de conteúdo.
4. Tecnologia e seus impactos na sociedade
Temas sobre inteligência artificial, redes sociais e transformação digital podem parecer complexos por envolverem conceitos novos. Mesmo assim, podem ser analisados a partir de questões sociais já conhecidas, como desigualdade, acesso à informação, privacidade e educação.
Exemplos:
- Os desafios para garantir o uso responsável da inteligência artificial;
- Os impactos das redes sociais nas relações interpessoais;
- Os obstáculos à inclusão digital no Brasil.
O primeiro passo é identificar qual aspecto da tecnologia está em discussão. A inclusão digital, por exemplo, exige uma análise sobre acesso a dispositivos, conexão e formação tecnológica. Já o uso responsável da inteligência artificial pode envolver transparência, proteção de dados e consequências sociais da automação.
Embora compartilhem o eixo da transformação tecnológica, essas propostas demandam argumentos específicos e não devem ser tratadas como se fossem o mesmo problema.
Como reconhecer a estrutura de um tema de redação?
Para evitar que uma proposta aparentemente difícil bloqueie o planejamento do texto, o estudante pode adotar um roteiro de análise antes de começar a escrever.
1. Identifique o recorte temático: observe as palavras centrais do enunciado e verifique qual problema precisa ser discutido. Um tema sobre desigualdade educacional, por exemplo, não pede necessariamente uma análise de todos os problemas da educação brasileira.
2. Formule uma tese: apresente o posicionamento que será defendido ao longo do texto. A tese deve responder ao problema proposto e orientar os argumentos.
3. Escolha dois eixos argumentativos: procure causas, consequências ou mecanismos que ajudem a explicar a permanência do problema. Cada parágrafo de desenvolvimento deve contribuir para a defesa da tese, em vez de apenas apresentar informações sobre o assunto.
4. Relacione o repertório ao tema: referências históricas, sociológicas, culturais e científicas podem fortalecer a argumentação quando são pertinentes e explicadas. Citações decoradas, sem conexão com a discussão, não substituem o desenvolvimento das ideias.
5. Elabore uma proposta de intervenção: na conclusão, apresente uma medida relacionada ao problema discutido. É importante indicar quem pode agir, o que pode ser feito e de que maneira a iniciativa pode contribuir para enfrentar a questão.
Essas etapas estão alinhadas às competências descritas pelo Inep para a avaliação da redação, que incluem a compreensão do tema, a organização dos argumentos, a coesão textual e a elaboração de uma proposta de intervenção.
É possível reutilizar argumentos em temas diferentes?
O estudante pode reaproveitar conhecimentos, referências e estratégias de raciocínio durante a preparação, desde que faça as adaptações necessárias. Um repertório sobre desigualdade social, por exemplo, pode ajudar a compreender diferentes problemas, mas sua utilização depende da relação que estabelece com o recorte da proposta.
O mesmo vale para a estrutura do texto. Introdução, desenvolvimento e conclusão são partes fundamentais da redação dissertativo-argumentativa, mas não garantem, isoladamente, uma boa nota. É necessário demonstrar domínio do tema, selecionar argumentos pertinentes e construir uma proposta de intervenção coerente com a discussão.
Para se preparar para o Enem 2026, uma estratégia é treinar temas de diferentes áreas e, antes de escrever a redação completa, elaborar apenas a tese e os dois argumentos centrais. O exercício ajuda a desenvolver a capacidade de interpretar propostas e organizar o raciocínio, inclusive quando o assunto não foi estudado diretamente.
A Cartilha do Participante do Enem 2026, disponibilizada pelo Inep, reúne orientações sobre os critérios de avaliação e exemplos de redações da edição anterior com comentários pedagógicos. O material pode auxiliar os candidatos a entender como os argumentos são desenvolvidos e relacionados ao tema.

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