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O descanso dos aliados pode custar a Presidência a Lula ou a Flávio

Governadores eleitos organizam suas gestões enquanto candidatos ao Planalto precisam manter equipes e lideranças empenhadas em levar o eleitor à urna.

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O próximo presidente da República depende da disposição de milhões de brasileiros para sair de casa neste domingo. Há votos suficientes para vencer e cansaço suficiente para deixá-los pelo caminho. No fim, pode vencer quem tirar mais gente de casa.

A mobilização eleitoral vai decidir quanto do apoio registrado nas pesquisas chegará às urnas. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm motivos para se preocupar bastante com o eleitor que declara preferência por um deles, reclama do adversário, compartilha propaganda, mas acaba passando o domingo longe da seção eleitoral.

Presença

As pesquisas se tornaram acessórias nesta reta final. Ajudam a identificar tendências, localizar vantagens e orientar o trabalho das campanhas. Mas o resultado depende do comparecimento. Em uma disputa apertada, alguns milhares de apoiadores ausentes podem destruir a vantagem celebrada durante a semana. O candidato conserva a preferência daquele cidadão, continua recebendo sua defesa nas conversas de família e termina derrotado pela indisposição dele para enfrentar uma fila no dia da votação.

O que as pesquisas estão mostrando hoje, o empate numérico, pode não se confirmar na urna. E não é porque os institutos estarão errados. Existe uma distância entre responder a uma pesquisa e participar da eleição. Nela cabem o desânimo com os candidatos, a sensação de que o país continuará no mesmo lugar e a convicção conveniente de que um voto fará pouca diferença. Tem muita gente que responde a pesquisa e já está com viagem marcada para passar o fim de semana na praia.

As campanhas precisam romper essa acomodação. Até a simples rejeição ao adversário perde utilidade eleitoral quando seu portador prefere ficar em casa. Pra mobilizar é preciso ir além e fazer o brasileiro ter medo do adversário, como incentivo para sair de casa e “se defender”.

Território

A decisão pela abstenção tem endereço também. A ausência de eleitores nos redutos de Lula favorece Flávio. Nos territórios de maior força do bolsonarismo, a desmobilização ajuda o presidente Lula. Um mesmo percentual nacional de comparecimento pode produzir resultados muito diferentes conforme sua distribuição pelo país. A geografia das ausências terá peso na definição de quem receberá a faixa presidencial.

Vejo uma ligeira vantagem para Flávio nessa conta, pela expectativa de mobilização de suas bases no Sul e no Sudeste. É uma avaliação sobre a capacidade de fazer o apoio chegar à urna. Lula depende de uma participação forte do Nordeste para sustentar a vantagem que busca construir na região. E pode conseguir isso com o uso da estrutura governamental. Dentro dos limites da lei, espera-se.

Estrutura

Lula dispõe de instrumentos políticos relevantes para essa tarefa. A Presidência dá alcance à sua mensagem, organiza interesses e oferece capacidade de articulação. Somam-se a isso partidos, prefeitos, parlamentares e lideranças locais capazes de chegar a eleitores que passam longe das discussões mais barulhentas das redes sociais. O peso dessa estrutura merece atenção especial numa eleição em que a disposição para votar pode decidir o resultado.

O entusiasmo por Lula pode estar desgastado. A rede política que sustenta sua candidatura continua tendo razões concretas para trabalhar pela vitória. Lideranças municipais conhecem as resistências de suas comunidades, identificam os eleitores desanimados e conseguem fazer uma convocação direta. Nesta hora, uma conversa com alguém de confiança pode ter mais consequência eleitoral do que uma publicação com milhões de visualizações.

Acomodação

Flávio carrega o risco da vitória antecipada por seus próprios apoiadores. A “certeza” de que o adversário está derrotado oferece conforto demais numa disputa dessa natureza. O eleitor passa a tratar seu comparecimento como dispensável. Outros resolverão. A campanha triunfalista alimenta justamente a acomodação que deveria combater. Um dos maiores erros da campanha bolsonarista no segundo turno foi abrir a primeira semana agindo como se já estivesse tudo resolvido. Isso pode reduzir comparecimento.

Lula também enfrenta a resistência de quem declara voto com pouca disposição para defendê-lo. O cansaço com o governo pode sobreviver à preferência pelo presidente e aparecer na forma de ausência.

Domingo

Até a abertura das urnas, às 17h, as campanhas vão disputar o sentimento de urgência. O trabalho das lideranças locais, a organização dos partidos e a capacidade de convocação dos candidatos terão seu teste definitivo. Os candidatos conseguirão fazer as pessoas saírem de casa?

Haverá muita gente contando vantagem com os votos registrados nas pesquisas, mas presidente mesmo será quem conseguir fazê-los chegar às urnas. Eleição apertada também se perde no sofá.

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