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LGBTfobia começa em casa, afasta vítimas da denúncia e atravessa o cotidiano

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Pernambuco figura entre os estados mais violentos do Brasil para a população LGBTQIAPN+, de acordo com os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. É o 7º que mais registra crimes de racismo por homofobia e transfobia, além de aparecer em 2º lugar em lesões corporais dolosas e homicídios contra essa população.

Mas a realidade ultrapassa o que é registrado formalmente nas delegacias. Pessoas LGBTQIAPN+ convivem diariamente com situações de discriminação, exclusão e violência que acontecem dentro de casa, nas escolas, nos ambientes de trabalho e até mesmo quando procuram ajuda do próprio Estado.

Insegurança no sistema

O Anuário, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o crime de racismo por homofobia e transfobia teve um aumento de 35,6% de 2024 para 2025. Esse enquadramento abrange diferentes condutas discriminatórias, desde ofensas verbais e humilhações até a recusa de atendimento, discriminação em serviços ou empregos e a incitação ao ódio contra essa população.

Apesar dos indicadores elevados, o próprio relatório alerta que há uma grande subnotificação de casos, também ocasionada, entre outros fatores, à preferência das vítimas LGBTQIAPN+ em “não expor tais informações frente a autoridades de segurança pública”, como aponta o relatório, uma vez qye a falta de confiança nas instituições e o medo de revitimização afastam parte da população das delegacias.

Isso é exemplificado em experiências práticas. Em 2023, a agente comunitária de saúde Adônias Mastronelly, mulher trans de 47 anos, procurou uma delegacia em Caruaru, no Agreste, após ser vítima de um golpe e ter seu carro roubado.

“Me olharam de cima a baixo, como se eu fosse um ser de outro mundo”, relembra. 

Ela afirma ter sido atendida com certo descaso, que prefere não atribuir diretamente à transfobia, mas recorda perfeitamente do desconforto que sentiu durante todo o período em que esteve na unidade.

“O tempo todo olhavam para minhas pernas, pro meu rosto ou pra minha boca. Eu sentia como se fosse culpada por ser mulher, por ter esse corpo, falar dessa forma. É como se eu chamasse atenção para o sexo”, diz.

Mesmo que a queixa inicial não fosse sobre homotransfobia, o sistema público de segurança constrangeu e afastou mais uma pessoa LGBTQIAPN+ que procurou ajuda.

Jornal do Commercio também conversou com Rildo Veras, representante do Movimento LGBT Leões do Norte e da Rede LGBT do Interior de Pernambuco. Ele enxerga o caso de Adônias como mais um problema no registro de casos.

“Já é difícil convencer a vítima a denunciar. Quando finalmente convence, nem sempre ela é bem-atendida. Ao invés de se resolver um problema, ela acaba sofrendo outra violência”, avalia. 

Como forma de estimular as denúncias e reunir provas que possam fortalecer futuras investigações, o Movimento LGBT Leões do Norte desenvolveu o aplicativo Rugido, que permite registrar casos de LGBTfobia com fotos, vídeos e localização da ocorrência.

A ferramenta também busca produzir informações sobre uma violência que, muitas vezes, permanece invisível nas estatísticas oficiais.

Insegurança dentro de casa

As delegacias não são os únicos espaços que deveriam ser seguros para a população LGBTQIAPN+ e não são. Um levantamento do Instituto Pólis, divulgado em 2024, aponta que 60% das vítimas de violência LGBTfóbica na cidade de São Paulo (SP) foram agredidas por familiares ou pessoas conhecidas.

Já dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), compilados pelo Mapa da Violência de Gênero, mostram que, entre 2014 e 2017, quase metade (49%) das agressões contra mulheres trans e travestis ocorreu dentro de casa. Ainda são poucos os estudos que dimensionam esse tipo de violência, o que dificulta compreender sua real extensão.

Rildo Veras observa que expulsões de casa, rejeição familiar e tentativas de impedir a expressão da identidade de gênero ou da orientação sexual fazem parte da trajetória de grande parte dessa população, especialmente no interior do estado, onde a cultura do “cabra macho” prevalece.

Foi dentro de casa que a artista e estudante de publicidade e propaganda Victoria Maxie, de 20 anos, começou a experimentar esse tipo de violência. Ainda no ensino médio, ela, que é uma mulher trans, percebeu que “tudo que era relacionado à minha identidade precisava ser escondido”, se não virava motivo de conflitos familiares.

Ao longo dos anos, o medo passou a influenciar diferentes aspectos da rotina, desde situações tidas como simples e cotidianas até a formalização de documentos. Victoria evitou solicitar o uso do nome social na universidade, escondia roupas e acessórios, se maquiava em segredo e precisava trocar de roupa antes de voltar para casa. 

Mesmo depois de iniciar a vida universitária e conquistar maior autonomia, ela afirma que continuou convivendo com situações de rejeição dentro da própria residência. A genitora parou de falar com ela e o genitor constantemente dizia que, dentro da casa dele, ela não poderia se expressar.

“Parecia que eu era uma estranha dentro de casa, que eu sempre estava incomodando por alguma coisa”, relembra.

Ela não enxergava aquele ambiente como um lar e planejava se mudar, mas tinha muito medo por questões financeiras. O estopim foi quando a família trocou a senha do Wi-Fi para que ela não usasse. “Tive que trabalhar usando a internet do celular, e aí decidi que tinha que ir embora”.

Ela se mudou há cerca de uma semana e diz que passou a experimentar situações simples que antes pareciam impossíveis: poder pintar as unhas sem medo, deixar um salto secando após a lavagem, ouvir música sem fones de ouvido e usar as roupas que gosta.

“Enquanto eu pintava a minha unha, eu fiquei pensando ‘meu Deus, como é que algo tão básico era motivo de grande discussão em casa?'”

E onde estão as políticas de segurança? 

Questionada pela reportagem, a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE) afirmou que policiais civis e militares participam de “capacitações periódicas voltadas ao atendimento humanizado e qualificado da população, com foco no acolhimento, respeito aos direitos humanos e atuação responsável junto às vítimas, incluindo a população LGBTQIAPN+”.

Na mesma linha, a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência de Pernambuco (SJDH-PE) informou que promove formação continuada para servidores públicos, incluindo profissionais da Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar, Guardas Municipais, rede socioassistencial e sistema socioeducativo, buscando qualificar o atendimento prestado à população LGBTQIAPN+.

Para Rildo Veras, entretanto, o desafio vai além da existência de normas e cursos de capacitação.

“Não adianta ter tudo isso se, lá na delegacia, as pessoas não estão preparadas e sensibilizadas para atender essa população com dignidade, para perguntar com respeito e entender quando um crime é, de fato, LGBTfobia”. 

O representante do Movimento LGBT Leões do Norte também defende que as políticas públicas avancem para além da Região Metropolitana do Recife. Segundo ele, a população LGBTQIAPN+ do interior enfrenta maior conservadorismo e ainda tem pouco acesso aos serviços de proteção e promoção de direitos.

Em resposta, a SJDH-PE afirma que tem fortalecido as políticas públicas voltadas a essa população por meio da participação social, descentralização das ações e articulação com municípios. Entre as iniciativas estão a 4ª Conferência Estadual dos Direitos da População LGBTQIA+, espaço permanente de articulação entre o Governo do Estado e os municípios.

Por fim, afirma que “permanece investindo no fortalecimento da rede de proteção, na qualificação dos profissionais, na interiorização das políticas públicas, na ampliação dos espaços de participação social e no monitoramento permanente dos indicadores, com o objetivo de assegurar proteção, respeito à diversidade, promoção da cidadania e acesso a direitos em todas as regiões de Pernambuco“.

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