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Polêmicas urnas eletrônicas

Com apoio do presidente dos EUA – que também gosta de questionar resultados eleitorais – o Brasil volta a ter a votação sob inventada suspeita

Por

JC


Publicado em 27/07/2026 às 0:00

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A votação por urnas eletrônicas elegeu Bolsonaro em 2018 e Lula em 2022. Foi implantada nas eleições municipais de 1996 – portanto, há 30 anos. Então, antes deles, já haviam sido declarados vitoriosos por esse sistema de votação, em 1998, Fernando Henrique Cardoso; o próprio Lula, em 2002 e 2006; e Dilma Roussef, em 2010 e 2014. Em 2026, portanto, será a oitava vez que a democracia brasileira se fia nas urnas eletrônicas, que também computam os votos para os demais cargos majoritários e proporcionais em disputa – este ano, além da presidência da República, os governos estaduais, o Senado e a Câmara dos Deputados, no Congresso, e as assembleias estaduais.
É curioso que a narrativa de fraude envolvendo o sistema eletrônico em uso e aprimoramento há três décadas no país, não se volte igualmente para outro foco além do Palácio do Planalto. Afinal, trata-se do mesmo sistema, com as mesmas unidades de recepção, a mesma tecnologia de armazenagem, segurança e apuração. Mesmo assim, nem o preenchimento do Congresso e demais parlamentos, nem a eleição para os governos estaduais e municipais, chegaram a receber dos líderes partidários o grau de preocupação que alguns exibem quanto ao resultado do pleito para presidente.
A menos de três meses do primeiro turno, a campanha negacionista contra a validade da votação eletrônica no Brasil volta a ser insuflada por um dos principais candidatos, batendo na mesma tecla, por assim dizer, que seu pai bateu. A insistência da família Bolsonaro não é tão inusitada, uma vez que encontra eco nos seguidores das redes sociais, para os quais o absurdo é a resistência à votação típica do século passado, com papel, caneta, sacolas cheias de cédulas – e muita desconfiança, pois as práticas de fraude e de compra de votos eram infelizmente comuns.
Desta vez, a suspeita neoludita, antitecnologia, ganha o reforço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que também gosta de questionar o sistema eleitoral em seu país, além de, a exemplo de Jair Bolsonaro, não reconheceu a derrota quando perdeu nas urnas para o democrata John Biden – na disputa seguinte, venceu, e ocupa a cadeira presidencial na Casa Branca, mas não deixa o hábito de questionar o processo eleitoral. Trump quer enviar ao Brasil representantes do governo dos EUA para investigar as urnas eletrônicas utilizadas aqui. Certamente, os resultados dessas investigações irão culminar na invalidação do processo, caso seja conveniente. No mesmo tipo de armação lógica que vem utilizando para sobretaxar produtos brasileiros, aliás, sem fundamentação nem provas do que alega.
O Brasil tem muitos problemas que precisam ser abordados com seriedade pelos candidatos, em todos os níveis de gestão, e por quem deseja exercer função parlamentar. Transferir a atenção da população e das instituições para a polêmica da confiabilidade do processo eleitoral é um desserviço à nação que pode sabotar a democracia. Sem uma única prova de que a tecnologia desenvolvida em 30 anos, estimulando o processo democrático desde a votação até a apuração, servindo à pluralidade de partidos e representantes do povo que tomaram posse e cumpriram seus mandatos, apresente qualquer vulnerabilidade, aqueles que a colocam em xeque parecem desejar não depender de eleições para chegar e se manter no poder.

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