A Orquestra Criança Cidadã completa duas décadas de atuação neste sábado, 25, como um dos melhores exemplos do que a arte faz pela vida
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Pernambuco é um lugar de carências e oportunidades, de caminhos repletos de obstáculos, mas também de esperança, para a maioria da população. Sobretudo as novas gerações, que vislumbram dificuldades transmitidas de geração a geração, por seus pais e avós. Mas também podem se deparar com chances incríveis que os mais velhos não tiveram para facilitar a trajetória e melhorar a qualidade de vida. É nesse estado pulsante de criatividade e gente generosa que o apoio aos que mais precisam se realiza no encontro transformador entre a arte e a cidadania.
Fundada em 25 de julho de 2006 com o objetivo de resgatar crianças e adolescentes de um meio social conturbado e arriscado, a Orquestra Criança Cidadã é um exemplo pernambucano para o mundo: de aproveitamento da potência da cultura para a formação do indivíduo e a mudança coletiva, de oferta de meios concretos para que sonhos virem realidade, de resposta da comunidade para os que não acreditavam que de um local de tantas vulnerabilidades pudesse brotar o encanto da inspiração para tantas pessoas, próximas ou distantes. Através dos instrumentos musicais e dos semblantes de jovens músicos, o que se escuta é a melodia de uma utopia possível.
Como conta Laís Nascimento em reportagem para o JC, a Orquestra Criança Cidadã surgiu no Coque, por iniciativa do juiz João José Rocha Targino. Não por acaso: a comunidade do Coque apresentava um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano (IDH) do Recife, cidade marcada por profundas desigualdades. Mas as diferenças não inviabilizam as pontes que unem a boa vontade e a necessidade. O Coque viu brotar um projeto que desde então enche de orgulho os pernambucanos, faz do Recife uma referência global de interferência da arte na vida – de salvação da vida pela arte. Atualmente, o projeto abraça quase 500 crianças e jovens de 6 a 21 anos de idade, nos núcleos do Coque, no Recife, Camela, em Ipojuca, e Chã de Cruz, na Zona Rural de Igarassu.
Com as experiências acumuladas e o reconhecimento alcançado, o idealizador celebra as duas décadas de persistente trabalho em prol dos menos favorecidos. “Quando criamos a Orquestra Criança Cidadã, acreditávamos que a música poderia abrir portas e transformar vidas. Vinte anos depois, temos a certeza de que ela fez muito mais do que isso: formou cidadãos, fortaleceu famílias e mostrou ao mundo o talento que nasce em Pernambuco quando há oportunidade, dedicação e esperança”, disse Targino à reportagem do JC.
Formado pela iniciativa originada no Recife, o músico Antonino Tertuliano, hoje com 33 anos, faz parte de uma orquestra alemã, onde toca contrabaixo. “A Orquestra Criança Cidadã mudou completamente a minha vida. Foi ali que descobri não apenas a música, mas um propósito. Tudo o que vivi desde então começou naquele primeiro ensaio, ainda no Coque”, testemunha. Os depoimentos de quem teve outra vida graças ao projeto, e as histórias contadas nesses 20 anos, tornam a Criança Cidadã um modelo de viabilização – e visibilização – de revoluções proporcionadas pela arte. A música é uma das opções, num cardápio criativo que pode incluir o artesanato, a literatura, as artes plásticas ou as artes cênicas, entre outras vocações que, uma vez despertadas, não cessam de querer mudar o mundo para melhor.

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