Flávia Suassuna lança seu novo livro de poesia, “Tributo à palavra”, neste sábado à tarde, no Recife, na Academia Pernambucana de Letras
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A poesia opinativa da professora, escritora da Academia Pernambucana de Letras (APL), Flávia Suassuna, é vibrante, pode ser dura e cortante. Reconhece a necessidade da palavra como “esse equipamento só nosso que nos auxilia nesse labirinto que é a existência”, diz a autora de “Tributo à palavra”, publicado pela Bagaço, em entrevista à coluna Literária.
A poesia de Flávia Suassuna passeia da realidade à reconstrução permanente do real, no instante em que a pandemia de Covid, em 2020, parecia um beco sem saída ou estranho ponto de partida… para onde? Quando o próprio tempo sumiu, na proibição para se velar os mortos, e toda cronometria era contagem regressiva.
Um tributo à palavra, como este que nos traz Flávia Suassuna, é tributo à linguagem da vida. Sobretudo na língua da aflição de uma peste, como as sirenes de ambulâncias, únicos gritos de dor no exterior silencioso do cotidiano em confinamento. O futuro ansioso e o passado incrédulo confluem num presente estático. Resta tomar a palavra, este fio teimoso, desafiando o tempo que a desafia. Resgatar o passado, enviar sinais ao futuro, e mostrar ao presente o que houve, o que não veio. Ainda na agonia das respostas, sem abdicar da coragem das perguntas realizadas pelas palavras. A poesia questiona, verso a verso, porque a palavra está posta, sem resignação.
O lançamento será na sede da APL, no Recife, neste sábado, 27, a partir das 4 da tarde. Antes dos autógrafos haverá bate-papo com a autora.
Por que um tributo à palavra, Flávia?
Flávia Suassuna – Como você sabe, meu livro “Tributo à palavra” foi escrito durante a pandemia. Foi um momento muito difícil para uma quantidade enorme de pessoas no mundo todo… E não sei se teríamos chegado até aqui se não fosse a palavra presente nas músicas, nos livros e nos filmes que consumimos durante aqueles anos. Um mundo sem palavra é um mundo sem lei, sem fala, sem escuta, sem diálogo… É um mundo bárbaro, sem lógica, na minha opinião. Um caos… E exatamente meu livro é uma espécie de agradecimento à palavra por ela existir e por ela nos ajudar a cumprir a estada material que é dificílima.
O que a palavra representa para você?
Flávia Suassuna – Representa a única ferramenta que temos para evoluir, achar um sentido para a nossa existência, conviver. Nosso jeito de ser é muito estranho – não sabemos viver com os outros, nem podemos viver sem os outros. É difícil!! Um verdadeiro desafio!! A palavra é esse equipamento só nosso que nos auxilia nesse labirinto que é a existência. Mas para isso é preciso movimentá-la, assim: um fala, outro escuta (a escuta joga no time do silêncio, mas tem de haver o tempo de retrucar, com respeito); um escreve, outro critica, faz uma resenha, outro faz um filme… A palavra movimentada impede o sangue de correr entre nós; quando ela falha, as guerras triunfam…
E qual o valor da palavra em nossos dias de culto à imagem?
Flávia Suassuna – Felizmente, ela existe, pois nossos dias estão cheios de publicidades que prendem as palavras no objetivo mercadológico e injuntivo… É preciso desfazer esse nó. As palavras não existem só para mentir, vender e orientar. Sem a palavra, não há amor, por exemplo, e todas as suas deliciosas nuanças… Drummond já disse isto: as palavras são tristes, se consideradas sem ênfase… E a ênfase é a beleza, que salvará o mundo, como disse Dostoievski… A mais bela imagem é inútil sem as palavras que a julgam, que a guardam, que a explicam… É com palavras que criaremos um mundo em que a imagem não seja mais importante do que os sentimentos e o cuidado que devemos uns aos outros.
De um livro para outro, a escrita percorre um caminho para você? O que sente entre uma publicação e outra?
Flávia Suassuna – Quando acabo um livro, sinto alívio. Durante a confecção, fico focada no livro, não penso noutra coisa… Quando o termino e consigo publicar, sinto que cumpri uma tarefa. E aí outro começa a se mexer dentro de mim, e nem me importo mais com o penúltimo, acho que ele deixou de me pertencer: é do mundo…
A poeta e tradutora Marília Garcia escreveu que “a poesia pode ser uma ponte que se estende até outras pessoas e, pouco a pouco, vai costurando laços afetivos e construindo afinidades”. Também é assim pra você, a compreensão afetiva da poesia e da vivência poética? Como são seus laços poéticos?
Flávia Suassuna – A poesia é feita de palavras; ambas – a poesia e a palavra – são invenções humanas e, portanto, carregam nossos defeitos e nossas virtudes, podem ser pontes, mas também podem ferir. Elas são como a palavra “mina” – podem guardar riquezas e podem ser uma bomba. Elas não têm moral, nem são tábuas de mandamentos. Guimarães Rosa tem uma frase linda sobre isso: “Uma coisa é pôr ideias num papel, outra é viver num país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias”. Eu a interpreto assim: uma coisa é fazer uma Constituição, outra é conviver… Quer dizer: há mais entre nós do que a palavra injuntiva pode prever. A poesia ajuda, pois movimenta a palavra, está na ponta da lança da língua, auxilia a gente a dizer quando não podemos dizer claramente, quando ainda estamos tateando… A literatura é a arena que a gente construiu para um calçar o sapato do outro, vestir o vestido da outra… Embora eu defenda que cada um escolhe seu caminho, tenho uma preferência pelos desarmadores de bombas, pois eles nos acodem na hora de devolver as palavras ao que elas deveriam ser – um antídoto à Torre de Babel. Acho que “Tributo à palavra” é cheio do que chamo de poesia opinativa: quando a pandemia passou e um mundo melhor não veio, como cheguei a esperar, eu quis participar das discussões que se seguiram de um modo diferente – com metáforas que revelam respeito e cuidado com os outros, contrariando o impulso bruto das tretas das redes sociais.

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