História, cultura e religiosidade fazem a identidade nordestina aflorar e ser exaltada, atraindo o olhar de fora, mas sobretudo se reconhecendo
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A celebração de santos católicos em Portugal, no mês de junho, encontrou eco na religiosidade de um país em formação. E foi se consolidando com a junção de características regionais, ganhando formas vibrantes e contornando cada vez mais a identidade nordestina. Com Santo Antônio, São João e São Pedro como padroeiros, as festas originalmente de manifestação pagã no Velho Continente foram trazidas ao Brasil e resultaram, no Nordeste, na mistura entre a fé e a celebração do ciclo natural e da vida, na gratidão expressa pelas colheitas, dando à terra o seu sentido sagrado, combinando ritmos de cantos e sons de instrumentos de povos diversos, de raiz africana, indígena e europeia.
Com o passar do tempo, as combinações se expandiram na direção das histórias e costumes locais, ampliando a influência de polos regionais sem deixar de fortalecer a cultura de cada município – mas sempre ressaltando as características que fazem das festas juninas um período rico de oportunidade para a exaltação do sentimento identitário nordestino. Em especial, conferindo às cidades do interior a chance de exibição de traços típicos na síntese entre a cultura e a economia em desenvolvimento, no aflorar de potências criativas em junho.
Os festejos juninos ainda carregam um aditivo de apelo à participação da maioria da população: além do convite dos eventos de rua, nos últimos anos em palcos profissionais com nomes famosos bancados pelo poder público e por patrocinadores, trata-se de uma comemoração que remete à tradição familiar, com histórias revisitadas, a convivência de gerações e o hábito da reunião em casa, nos quintais ou na rua em que se mora. Como no Natal, mas igualmente como uma espécie de Carnaval onde a música e a dança aparecem como componentes essenciais, a estação junina vai juntando gente próxima para reverenciar os santos, as tradições, a bonança e a alegria de viver.
As tradições se renovam na contemporaneidade em quadrilhas estilizadas em concursos que lembram as escolas de samba do Rio de Janeiro, nos investimentos realizados pelo poder público e por empresas para atingir multidões, e na reafirmação dos encontros pessoais na base do desejo coletivo da festa. Há um romantismo agregado às festas juninas, mais do que no período carnavalesco, nos costumes e rituais compartilhados. Na gastronomia, no vestuário, nas canções relembradas e nos ícones reconhecidos, como Luiz Gonzaga, o que é tradicional não se perde, permanece nos palcos, no coro, no olhar de quem brinca a festa junina.
Vem do rei do baião a inspiração que se repete nessa época, notadamente nas vésperas do Dia de São João. Espécie de hino regional, a “Asa Branca” de Gonzaga se dirige com nostalgia à terra natal sertaneja, enquanto “Olha pro céu” lança a voz à esperança no amor e na beleza de uma noite estrelada. Mais que pura diversão, o Nordeste que desponta no festejo junino é fincado em raízes que se diversificaram, mas não perderam a força da origem, nem o gosto da mistura cultural nos frutos de dinamismo da região.

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