Em típica alternância de ânimos, torcida brasileira passa da decepção vergonhosa à exaltação do favoritismo nas duas primeiras partidas da Copa
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Nélson Rodrigues tentou traduzir o efeito mobilizador de uma Copa do Mundo de Futebol para os brasileiros, com a expressão “pátria de chuteiras”. O patriotismo atrelado ao esporte mais popular no país vem da conquista da primeira estrela na camisa, seguiu sendo mencionado até o pentacampeonato, em 2002, e volta a ser motivo de reflexão a cada edição de Copa masculina, desde então – como podemos fazer agora, numa nova tentativa de caminhada para o hexa, 24 anos após o último triunfo.
Se o indivíduo que torce se revela pelo avesso quando o resultado em um jogo desmente ou destroça o resultado anterior de seu time, uma nação que torce não esconde o reflexo da identidade coletiva representada por 11 atletas tocando a bola dentro de quatro linhas em corrida na direção do gol. Na estreia contra o Marrocos, a Copa de 2026 parecia confirmar as piores expectativas dos cronistas mais realistas, que advertiram a torcida sobre as limitações da seleção reunida pelo italiano Carlo Ancelotti. Talvez o fato de o treinador não ser brasileiro também contribua para uma certa marcação cerrada que faz o time inteiro de alvo da desconfiança a respeito da capacidade para ir mais longe, numa campanha que se fortalece até a grande final, como já aconteceu outras vezes, a exemplo de 1994, no tetracampeonato.
Bastou o segundo jogo, contra a frágil seleção do Haiti, a pior classificada no ranking de 48 seleções que disputam a Copa do Canadá, Estados Unidos e México, para que o apaixonado coração verde-amarelo retomasse a exaltação otimista de ufanismo incontido. O trajeto de anunciado fracasso logo se viu iluminado por gritos esperançados e esperançosos em direção a mais uma final de copa. Embora continue sem garantia de que passaremos da quarta partida, na abertura da fase eliminatória, como qualquer outra das 31 equipes que estarão classificadas, os torcedores brasileiros já fazem programação e anotam na agenda o roteiro até 19 de julho, quando se dará a finalíssima partida.
Mais que a experiência de um técnico vencedor na Europa, ou que a arte dos dribles e da pontaria certeira de craques veteranos ou novatos em copas, a mística da canarinha não se dissolve com o passar do tempo, apesar da falta de entusiasmo de torcedores famosos e comentaristas que não escondem o saudosismo em face de um time ainda sem formação decorada pela torcida. A seleção de futebol continua sendo o Brasil em campo, espelho de uma nação diversa, unida pela paixão esportiva que não se nutre da lógica de análises táticas. Os gols alimentam a paixão, as vitórias ampliam a margem do otimismo contra o ceticismo. E enquanto houver um jogo pela frente, tendo um adversário forte ou fraco no caminho, a brasilidade encherá o peito para cantar o hino, reclamar do juiz, do bandeirinha e do VAR, lamentar o lance perdido e perder a voz no sempre ansiado coro de gol.

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