Toda inovação em saúde começa muito antes de chegar a um hospital ou às mãos de um paciente. Por trás de cada tecnologia existem anos de estudo, testes e a decisão de transformar conhecimento científico em algo capaz de gerar impacto dentro e fora dos laboratórios. Em Pernambuco, esse movimento tem impulsionado o surgimento de startups criadas para enfrentar desafios reais da saúde por meio da inovação e do empreendedorismo.
Nesta reportagem especial, o JC mergulha no universo de três deeptechs nascidas da ciência. Conversamos com especialistas, empreendedores e pacientes para mostrar como descobertas desenvolvidas no Estado estão sendo transformadas em negócios capazes de mudar vidas. Os efeitos desse movimento podem ser medidos em números, investimentos e crescimento de empresas.
O impacto além dos números
Mas é na vida de pessoas como a da Madalena que eles se tornam mais visíveis. Aos 70 anos, a aposentada já não conseguia realizar sozinha tarefas simples do dia a dia. Depois de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), movimentos antes automáticos passaram a exigir esforço. Escovar os dentes, lavar a louça ou preparar os tradicionais almoços de família aos fins de semana se transformaram em desafios constantes. Aos poucos, a rotina foi ficando mais limitada.
O que ela não imaginava era que uma tecnologia desenvolvida por um grupo de cientistas pernambucanos ajudaria a mudar esse cenário. Ao participar de um processo de reabilitação apoiado por neuroengenharia e inteligência artificial, Madalena recuperou boa parte dos movimentos das mãos e voltou a realizar atividades que pareciam ter ficado para trás.
A recuperação da aposentada é uma entre muitas histórias que ajudam a explicar um movimento que vem ganhando força no Estado. Pesquisadores, profissionais da saúde e empreendedores estão transformando lacunas profundas em negócios de impacto, criando startups capazes de levar soluções inovadoras para a sociedade.
A recuperação de Madalena não aconteceu por acaso, por trás dela estão anos de pesquisa, testes e validações. Houve também a decisão de transformar conhecimento em negócio, um caminho que costuma ser tão desafiador quanto o próprio desenvolvimento tecnológico.
Para a gerente de Negócios Inovadores do Sebrae Pernambuco, Lívia Moura, histórias como essa ajudam a explicar o papel das chamadas deep techs, startups baseadas em conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico avançado. Diferentemente de outros modelos de negócio, esse tipo de empreendimento costuma percorrer um caminho mais longo até alcançar o mercado, passando por etapas de pesquisa, prototipação, validação e aperfeiçoamento antes de chegar às pessoas que mais precisam.
O principal desafio, explica a especialista, está justamente em transformar conhecimento científico em soluções capazes de melhorar a vida dos indivíduos. “Você pode criar algo em um laboratório, mas para virar inovação ele precisa ter aplicabilidade”, afirma. Ainda assim, esse modelo de empreendedorismo tem ganhado força no Brasil e em Pernambuco.
Dados do Anuário da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS) mostram que o Brasil concentra cerca de 65% das startups de saúde da América Latina, liderando o ecossistema regional de inovação em saúde digital. Nesse cenário, Pernambuco vem também se destacando nacionalmente, já que, segundo o Sebrae Startups Report Brasil 2025, o Estado registrou crescimento de quase 73% em sua base de startups entre 2024 e 2025.
Por que Pernambuco se destaca
A gerente do Sebrae Pernambuco conta, de forma quase bairrista e orgulhosa, que o crescimento desse ecossistema não pode ser explicado apenas pelos investimentos em inovação ou pela presença de universidades e centros de pesquisa. Há também um componente humano nessa equação.
“O pernambucano, de fato, tem uma diferença no ambiente do ecossistema de inovação, um tempero a mais. Somos um povo empreendedor por natureza, então isso ajuda até para entender o que pode se transformar num negócio. Eu acho que esse é um aspecto positivo”, afirma.
E foi justamente da combinação entre pesquisa científica, inovação e espírito empreendedor que surgiram startups capazes de transformar problemas complexos em oportunidades de impacto social. Uma delas decidiu enfrentar um dos maiores desafios da saúde contemporânea: devolver qualidade de vida para pessoas que tiveram suas rotinas alteradas em decorrência do surgimento de uma doença neurológica.
Todos os anos, cerca de 16 milhões de pessoas sofrem um acidente vascular cerebral (AVC) no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Para quem sobrevive a um derrame, os desafios costumam permanecer por muito tempo do que se imagina.
Estimativas apontam que aproximadamente 70% desses pacientes não retornam ao mercado de trabalho. Em muitos casos, a recuperação não significa apenas voltar a caminhar, mas sim recuperar a capacidade de realizar tarefas essenciais para o dia a dia.
Uma ideia que atravessou o oceano
A busca por respostas para este desafio levou os empreendedores Júlio Dantas e Vitor Hazin a apostar em uma empresa capaz de aproximar a ciência com a reabilitação. A Neurobots foi fundada em 2016, mas sua história começou dois anos antes, quando Hazin participava de um intercâmbio na Universidade de Reading, na Inglaterra, por meio do programa Ciência sem Fronteiras.
Paciente utiliza o Exobots, dispositivo criado pela startup pernambucana para auxiliar na recuperação de movimentos das mãos após lesões neurológicas – Cortesia/Neurobots
Foi durante esse período que surgiu a ideia de desenvolver um braço robótico controlado pelo cérebro como projeto pessoal. O experimento despertou interesse dentro e fora da universidade e, aos poucos, começou a revelar uma oportunidade que ultrapassava os limites da pesquisa acadêmica.
O interesse despertado pela tecnologia fez com que a pesquisa deixasse os laboratórios e começasse a ganhar contornos de negócio. O que inicialmente era um projeto acadêmico passou a atrair pacientes e familiares que enxergavam naquela inovação uma possibilidade concreta de recuperar a autonomia perdida após acometimentos no sistema neurológico.
Para Dantas, a proposta do negócio sempre foi conectar as pessoas às tecnologias que, até então, permaneciam restritas a um ambiente ainda distante. “A missão sempre foi a de trazer o que há de ponta na academia e na ciência de forma acessível para as pessoas que realmente precisam desse tipo de solução”, afirma.
Transformar a ideia em uma empresa, no entanto, foi apenas o primeiro passo. Como acontece com muitas deeptechs, o desafio seguinte era provar cientificamente que a tecnologia funcionava. Em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a startup iniciou seus primeiros ensaios clínicos e passou a testar os equipamentos em pacientes com sequelas neurológicas.
Os resultados surpreenderam, já que pacientes crônicos apresentaram melhora média de 30% após apenas duas semanas de reabilitação. Esse desempenho superou as expectativas iniciais dos pesquisadores e reforçou o potencial da tecnologia desenvolvida pela startup.
Durante as sessões de reabilitação, os exercícios são realizados com apoio de tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas conduzidas em Pernambuco – Cortesia/Neurobots
A paciente que mudou tudo
A mesma Madalena que voltou a preparar o almoço para a família após anos de dificuldades foi uma das primeiras pacientes que participaram dos estudos conduzidos pela Neurobots. A evolução da aposentada ajudou os idealizadores da empresa a enxergar, pela primeira vez, o potencial daquela tecnologia para transformar a rotina de pessoas reais.
“O sentimento era que, se a gente tivesse trabalhado dois anos para reabilitar só aquela paciente [a Madalena], já teria valido a pena.”
Mais do que validar uma inovação, a recuperação de Madalena mostra que unir ciência, tecnologia e empreendedorismo pode construir soluções capazes de devolver qualidade de vida a pacientes atingidos por doenças neurológicas.
O Censo Demográfico de 2022 do IBGE identificou a existência de 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com transtorno do espectro autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população do país. Entre os grupos etários, a maior prevalência foi registrada entre crianças de 5 a 9 anos. Esses dados reforçam uma demanda crescente por acompanhamento especializado, intervenções precoces e equipes cada vez mais preparadas para atender essa população.
À medida que cresce o número de diagnósticos, aumenta também a necessidade de registrar informações capazes de orientar o trabalho clínico. Em muitas instituições, porém, parte significativa do tempo dos profissionais ainda é consumida por longos formulários e planilhas realizadas longe dos pacientes.
Da prática clínica para a inovação
A convivência diária com esse cenário levou a psicóloga Maria Tereza Pedrosa, especialista em Análise do Comportamento Aplicada ao TEA, e o especialista em tecnologia Cauê Nascimento a buscar uma solução para um problema que consumia horas de trabalho das equipes de atendimento. Dessa inquietação nasceu a bHave, startup pernambucana criada para reduzir a burocracia e liberar mais tempo para o acompanhamento clínico.
Criada a partir da união entre psicologia e tecnologia, a bHave desenvolve soluções voltadas à organização e análise de dados utilizados em intervenções comportamentais – Cortesia/bHave
Para Pedrosa, a tecnologia nunca foi pensada como substituta da atuação profissional, mas como uma ferramenta capaz de ampliar a qualidade do acompanhamento clínico. “A tecnologia não vai suceder o fator humano, mas vai potencializar a capacidade que esses profissionais têm de enxergar esses avanços com mais clareza e precisão.”
Ao longo dos anos, a empresa passou por campanhas de financiamento coletivo, programas de aceleração, bolsas de pesquisa do CNPq e mentorias no Porto Digital. A ideia que nasceu da prática clínica hoje apoia profissionais em diferentes regiões do país.
A bHave transformou uma necessidade observada no dia a dia em um empreendimento de impacto na saúde – Cortesia/bHave
Insistir também faz parte do cuidado
Construir a bHave exigiu insistência e disposição para aprender com os erros. Maria Tereza reconhece que “o processo de empreender é difícil”, mas acredita que o esforço vale a pena quando uma solução consegue melhorar a vida de pacientes e profissionais.
“Quando a gente fala de intervenção em pessoas autistas, a gente está falando de construção de vínculo, escuta ativa, observação sensível e construção de confiança. Nenhuma tecnologia vai substituir isso.”
Em um contexto em que cada conquista pode representar uma nova forma de comunicação ou um avanço construído ao longo de meses de acompanhamento, a proposta da bHave chega para devolver aos profissionais mais tempo para cuidar de si e das pessoas.
Quando voltou para casa após dar à luz gêmeas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a enfermeira de formação, Geice Roque, se viu diante de um desafio que ia muito além dos cuidados com duas recém-nascidas. Enquanto aprendia a lidar com a maternidade pela primeira vez, também enfrentava as dúvidas e inseguranças do próprio pós-operatório.
“Além dos desafios de cuidar de duas recém-nascidas, também enfrentei o pós-operatório praticamente sozinha e com muitas dúvidas. Vivi momentos muito difíceis como mãe de primeira viagem”, relembra.
Geice Roque apresenta a Aicury durante evento da área de saúde digital – Cortesia/Aicury
A experiência pessoal se somava a uma inquietação que já acompanhava Geice e seu colega de profissão, José William, desde os tempos da graduação em enfermagem. Durante a formação e, posteriormente, na pandemia da Covid-19, os dois observaram que muitos pacientes deixavam hospitais e unidades de saúde sem orientação ou monitoramento contínuo, mesmo em períodos que ainda exigiam atenção e cuidados.
A pergunta que virou negócio
Foi da convivência com essa realidade difícil que surgiu a ideia de desenvolver um chatbot, uma assistente virtual voltada ao autocuidado que simula conversas com humanos. O projeto evoluiu, incorporou inteligência artificial e deu origem à Aicury, startup pernambucana que utiliza tecnologia para acompanhar pacientes remotamente e auxiliar equipes de saúde na identificação precoce de complicações.
Ao longo dos anos, o empreendimento cresceu junto com a trajetória acadêmica dos fundadores, que aprofundaram as pesquisas durante o mestrado e o doutorado em Ciência da Computação no Centro de Informática (CIn) da UFPE. A startup passou a integrar o InovaSUS Digital, iniciativa do Ministério da Saúde voltada ao desenvolvimento de soluções para fortalecer o SUS, e também conquistou reconhecimento internacional.
“Em vários momentos entendemos que não estávamos criando apenas uma ferramenta tecnológica, mas uma nova forma de assistência mais humanizada, acessível e próxima da realidade das pessoas”, conta.
De Pernambuco para o mundo
Um dos pontos principais dessa trajetória foi a seleção da empresa para o Brazilian Youth Entrepreneurs AI+ Smart Manufacturing Innovation Camp, realizado na China. A Aicury esteve entre as 33 startups brasileiras escolhidas para participar do programa.
José William representou a Aicury no Brazilian Youth Entrepreneurs AI+ Smart Manufacturing Innovation Camp, na China – Cortesia/Aicury
Para José Willian, “estar na China com a Aicury é um marco. É levar a inovação pernambucana para o mundo, criando conexões e oportunidades que transformam tecnologia em impacto real”. Ao conectar saúde e inteligência artificial, a empresa nasceu para entender quem é que cuida do paciente depois que ele volta para casa.
As histórias da Neurobots, da bHave e da Aicury nasceram em contextos diferentes, mas compartilham um mesmo ponto de partida. Todas surgiram quando pesquisadores e profissionais da saúde decidiram olhar para um problema real e buscar uma solução que pudesse chegar além dos laboratórios.
Para além de apenas uma boa ideia, transformar conhecimento em negócio exige persistência e disposição para enfrentar as incertezas. Lívia Moura salienta que esse é o principal desafio de quem escolhe empreender a partir da ciência.
“Eu acho que se eu pudesse deixar uma mensagem é para que insista. Empreender não é fácil, mas eu acredito que quando a gente tem um propósito, identifica pessoas que podem contribuir e caminhos que podem te ajudar, tudo é possível”, finaliza.
Em Pernambuco, histórias como essas mostram que empreender também pode ser uma forma de transformar conhecimento em cuidado, inovação em oportunidade e ciência em impacto social. Para pessoas como Madalena, a inovação ganha sentido longe dos laboratórios. Ela está na possibilidade de recuperar partes da rotina que antes haviam sido interrompidas.

COMMENTS