Eis que, em meio a uma disciplina do curso de engenharia, resolvemos sentar-nos com pessoas cegas e sentir suas dificuldades e suas dores
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A extensão universitária é bem-sucedida quando as pessoas que fazem a universidade se vestem de povo para entender o problema real que afeta a sociedade. No mundo acadêmico, é comum ver doutores do conhecimento abraçarem problemas que alimentaram suas teses ao longo de toda a carreira científica. O foco na sua temática de pesquisa, por vezes, o leva a oferecer soluções à sociedade que nem sempre são o que ela deseja. No entanto, como na vida, a carreira científica por vezes vale mais pela caminhada do que pelos fins. E esta caminhada é reflexo das ferramentas e métodos que servem para resolver muitos problemas.
Eis que, em meio a uma disciplina de engenharia, resolvemos sentar-nos com pessoas cegas e sentir suas dificuldades e suas dores. É difícil para alguém que não é cego entender a necessidade de uma bengala ou mesmo de um acompanhante de um cego na sala de aula. E por nunca ter precisado de uma, nunca foi à internet buscar o preço de uma máquina de escrever em Braille (e se assustar com o preço dela).
Esse tema nunca foi objeto de pesquisa em minha carreira acadêmica, mas os circuitos e chips de um laboratório de física são facilmente adaptáveis à construção de soluções simples para pessoas com deficiência visual. Foi quando surgiu a ideia de construirmos um crachá eletrônico para sinalizar obstáculos com o mesmo bip que se usa nos automóveis. Nossos voluntários testaram e sugeriram mudanças.
E se o crachá descrevesse a cena ao usuário? E, assim, foram surgindo novas versões do produto. Hoje, o crachá eletrônico é muito mais amigável do que em sua primeira versão: com um clique, uma microcâmera registra a cena e transmite a imagem a uma inteligência artificial que descreve em detalhes o que está diante dos olhos do usuário.
E cada clique no dispositivo é seguido de uma nova descrição por telefone celular, que aciona fones de ouvido, garantindo privacidade e, principalmente, autonomia ao usuário. Para a versão atualizada do produto, ampliaremos o leque de voluntários para sete atletas da APA (Associação Petrolinense de Atletismo), a partir dos quais buscaremos atender a novos requisitos que proporcionem maior conforto às suas rotinas.
Pode parecer algo simples, porém é revolucionário na vida das pessoas. Em vez de uns óculos inteligentes importados vendidos por muitos dólares, entra em cena uma tecnologia nacional que custa cerca de 150 reais.
E este protótipo é apenas a entrada para um conjunto de demandas das pessoas cegas que a engenharia pode abraçar como apoio e também como oportunidade para um mercado nacional que ainda não percebeu a carência nesta área.
Isso significa mais dignidade para nossos jovens, empregabilidade para nossos futuros engenheiros e foco na engenharia como mola propulsora de soluções para o nosso povo – aquilo que se chama soberania.
Helinando Pequeno de Oliveira. Vice-Presidente da Academia Pernambucana de Ciências e Professor da Univasf.

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