As queixas de Lula à gestão anterior do Banco Central soam, hoje, demagógicas e populistas: o remédio amargo dos juros continuou o mesmo
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Em sua coleção de fórmulas sintéticas, a sabedoria popular ensina: sempre é mais fácil falar do que fazer. No caso da política, inúmeros são os exemplos de comportamentos antagônicos, até mesmo contraditórios, quando uma figura tradicional da oposição é obrigada a deixar o palanque permanente da crítica para assumir a responsabilidade das escolhas e decisões no exercício do poder. E há, também, a persistência do discurso feito de uma perspectiva de fora, mesmo quando quem reclama teria o dever e a capacidade para agir em sintonia com o que diz – ou disse. A maestria no malabarismo retórico não é incomum no populismo brasileiro, fazendo com que a repetição da fala produza uma proteção de fachada contra a incoerência evidente, e não raro, denuncie escancarada omissão.
Os ataques do atual presidente da República aos juros altos, definidos pelo Banco Central (BC), se inserem no baú de contradições do PT no poder, e especificamente, de Lula no Planalto. Uma vez eleito para o terceiro mandato, Lula escolheu como bode expiatório das limitações do governo a estratégica manutenção dos juros em elevado patamar, em determinação autônoma do BC com o objetivo de segurar o consumo e impedir repiques inflacionários. Tal escolha é, sem dúvida, passível de refutações e dúvidas, na complexa seara da análise econômica. Mas o que o presidente da República resolveu fazer foi se utilizar do discurso político contra os juros altos, eximindo-se de qualquer responsabilidade pelas consequências dessa política, e mais, aproveitando o argumento para se blindar de toda falha ou restrição no âmbito de seu governo – se o país não crescia, se não eram gerados empregos, a culpa seria dos juros altos, e o governo Lula, em virtual oposição a si mesmo, não teria nada com isso.
Escolhido por Lula para comandar o BC, Gabriel Galípolo não baixou os juros como o presidente da República fez entender que baixaria, por seus inflamados discursos a respeito do assunto, confrontando diretamente o dirigente anterior, Roberto Campos Neto, oriundo da gestão de Jair Bolsonaro. Em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, na última terça, Galípolo afirmou, com tranquilidade: “As taxas de juros estão num nível bastante restritivo comparando com outros países, mas a gente assiste a uma economia que vem demonstrando resiliência, um desemprego baixo, uma renda crescendo acima da inflação e da produtividade, e indicadores de inflação bastante pressionados, apesar dos juros elevados”.
Desde janeiro do ano passado no posto, Galípolo tem desempenhado o papel de contraponto à desimportância conferida pelo governo federal à questão fiscal. Se não há freios para os gastos públicos, o mecanismo dos juros precisa estar acionado para barrar a alta inflacionária. E tanto Lula sabe disso, que amenizou as críticas ao mecanismo, e ao Banco Central, acatando a autonomia aprovada na gestão Bolsonaro e que, agora, funciona como anteparo ao ímpeto de baixar os juros a qualquer custo. Mas entre o discurso e a realidade, a distância segue muito maior do que o compromisso com as contas públicas.

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