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Editorial JC: Alvos de violência cotidiana

As notícias são estarrecedoras e os números, impressionantes – ainda assim, a sociedade brasileira não consegue impedir a brutalidade

Por

JC


Publicado em 22/05/2026 às 0:00
| Atualizado em 22/05/2026 às 7:05

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De um dia para o outro, no curto intervalo de 24 horas, todos os dias, durante mais de uma década, 64 meninas foram vítimas de violência sexual no Brasil – em média, a cada dia. De 2011 a 2024, foram mais de 308 mil vítimas. Apenas em 2024, são mais de 45 mil notificações, de acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero, com dados do Ministério da Saúde. No Dia Nacional do Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, na última segunda-feira, os números divulgados serviram para acender mais uma vez o alerta sobre a permanência desse tipo de crime brutal e covarde, que pode deixar traumas por toda a vida.

Resultado de parceria formada entre o Observatório da Mulher contra Violência (OMV) do Senado Federal; Instituto Natura e a Associação Gênero e Número, o Mapa é uma iniciativa que revela a gravidade da situação e de sua continuidade por anos e anos, sem que se obtenha efeitos significativos na proteção das mulheres, e no comportamento agressivo e criminoso de quem comete tais atrocidades, a imensa maioria, homens. Além de tudo, a subnotificação que acompanha a violência de gênero implica que os números reais devem ser ainda maiores, ou seja, muitas mulheres mais sofrem com esse problema, convivendo com o medo e a dor que se torna rotina.

Mais da metade dos casos registrados no período vitimaram meninas negras, incluindo crianças e adolescentes. Quase um terço do total de registros tiveram como agressores alguém do vínculo familiar mais próximo da vítima – pais, padrastos, irmãos, mas também mães, madrastas e irmãs. “Falar de violência sexual contra crianças e adolescentes exige abandonar uma fantasia confortável, a de que a infância está naturalmente protegida pela família. Os dados mostram outra coisa”, aponta a antropóloga Beatriz Accioly, do Instituto Natura. Para ela, a sociedade necessita acordar para o fato de que a proteção depende de “instituições e serviços capazes de perceber o que muitas vezes não aparece como pedido explícito de ajuda”. Mais que nunca, o acolhimento devido requer um forte senso de atenção para o sofrimento silencioso das meninas vitimadas pela violência sexual.

O rigor contra os criminosos – homens e mulheres – deve começar muito antes da segurança pública, nas escolas e postos de saúde que podem perceber e acionar mecanismos institucionais de defesa, para que os casos não ocorram ou não se repitam. Dos mais de 8 mil casos de violência sexual anotados oficialmente no primeiro trimestre de 2025, quase 3 mil foram perpetrados contra crianças e adolescentes. Trata-se de uma condição aguda de vulnerabilidade, dentro da própria casa, diante de pessoas da família. A sociedade inteira não pode seguir tolerando essa violência, que afronta a infância e a adolescência, compromete o desenvolvimento das meninas e faz do Brasil um país da impunidade, também, para os criminosos e criminosas que cometem violência sexual. Para que essa barbaridade passe a regredir, decisões coletivas hão de ser tomadas, com pressão da população e a sensibilidade mobilizadora das instituições, da qual o Mapa Nacional da Violência de Gênero é um bom exemplo.

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