Lançamento de programa bilionário a poucos meses das urnas e do fim do mandato constitui mais uma mostra de mania política brasileira
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Uma das preocupações mais fortes do povo brasileiro demanda soluções urgentes e viáveis faz muito tempo, e não surgiu agora. Portanto, poderia ter sido objeto de um programa como o anunciado, dias atrás, desde o primeiro mandato do presidente Lula, há mais de duas décadas. Pode-se imaginar até que o crescimento do crime organizado no país, com tentáculos em diversos estados e contaminação de ambientes institucionais, talvez tivesse sido evitado, caso a atenção devida ao problema não demorasse tanto – e não se sabe se o foco é verdadeiro, neste instante, ou apenas deriva da necessidade imposta pela agenda eleitoral, com o presidente Lula mirando o seu quarto mandato.
Até porque uma das manias mais fortes da política nacional é anunciar programas e projetos de maneira grandiloquente, armando solenidades festivas como se a promessa já representasse o resultado alcançado. Infelizmente, a história demonstra que as boas ou calculadas intenções, não raro, empacam na partida ou no meio do caminho, por falta de planejamento, de dinheiro ou de vontade política para dar continuidade ao que foi anunciado com pompa e circunstância. Quando não atrasam tanto e são tão mal executadas que suscitam processos nos órgãos de controle por suspeitas de desvio ou péssimo uso dos recursos públicos.
O programa de segurança voltado ao combate ao crime organizado no Brasil, anunciado pelo presidente Lula com entusiasmo, parece mais do mesmo na história recente do país. Não é por acaso que sobre a novidade que se apresenta em velhas roupagens, sobram mais desconfianças do que otimismo. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que é proposto vem de pauta antiga de reivindicações dos especialistas no setor, como articulação institucional entre os entes federativos e o combate à lavagem de dinheiro efetuada pelas organizações do crime, com a participação de empresas e até de gestores públicos.
Os quatro eixos apontados para a aplicação de R$ 11 bilhões, condicionados à capacidade de endividamento dos estados, são: asfixia financeira das organizações criminosas; fortalecimento da segurança no sistema prisional; qualificação da investigação e do esclarecimento de homicídios; combate ao tráfico de armas. Temas, repita-se, repetidos à exaustão na área de segurança pública. Restaria saber por que nada disso foi feito nos governos petistas no Planalto, incluindo os de Lula e Dilma Rousseff – e qual seria a motivação para o caráter emergencial da proposta, a praticamente quatro meses das eleições. Se nem se dispõe de tempo para o plano ser posto em prática, as intenções expressas nele servem de cacife eleitoral do governo em fim de mandato, a título de postulação de renovação nas urnas.
Uma das mais interessantes promessas é a segurança máxima para mais de uma centena de presídios estaduais. O que poderia constar do programa de governo do candidato à reeleição, foi antecipado à agenda do presidente em curso. O programa anunciado pode não surtir efeito sem o esperado Sistema Único de Segurança Pública, e da integração nacional do combate ao crime, sabidamente necessária para impedir o domínio territorial ainda maior dos bandidos em muitas cidades brasileiras.

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