A captura de Nicolás Maduro após a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela abriu uma nova frente de questionamentos sobre os bastidores da derrocada do regime chavista. Para o professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, o desfecho não pode ser explicado apenas pela ação externa de Washington, mas sobretudo pela dinâmica interna do poder venezuelano e pelo papel decisivo das Forças Armadas.
Na avaliação do especialista, há fortes indícios de que setores do alto comando militar venezuelano tenham optado por negociar a entrega de Maduro, diante da pressão exercida pelo governo Donald Trump e do cálculo de sobrevivência política e econômica da própria caserna.
“Maduro pode não ter sido preso, mas entregue. Tenho a sensação de que, pressionados por Trump, que precisava de um troféu político, os militares entregaram algo que já não consideravam deles”, afirmou Trevisan.
Presidente sem raízes militares
O professor destaca que Maduro nunca conseguiu estabelecer com as Forças Armadas o mesmo vínculo orgânico construído por Hugo Chávez. Diferentemente do antecessor, oriundo da carreira militar, Maduro sempre foi visto como um corpo estranho dentro da estrutura castrense, o que fragilizou sua sustentação no poder ao longo dos anos.
“Após a morte de Chávez, os militares tiveram que se adaptar a uma figura que não era do mundo deles”, avalia.
Essa distância, segundo Trevisan, tornou o presidente mais vulnerável em momentos de crise extrema, como o desencadeado pela ofensiva americana.
Poder militar além das armas
Na Venezuela, o peso das Forças Armadas vai muito além da segurança. Trevisan lembra que a caserna ocupa posições estratégicas na economia do país, controlando setores-chave e participando diretamente da gestão de recursos.
“Os militares participam da vida econômica da Venezuela. Não há como removê-los do poder. Qualquer transição passa por eles”, afirma.
Esse fator ajuda a explicar por que uma ruptura abrupta e caótica foi evitada e por que figuras da oposição, como Maria Corina Machado, fracassaram ao tentar avançar sem dialogar com os militares.
Petróleo como peça central do tabuleiro
Outro ponto central da análise é o papel do petróleo. Detentora da maior reserva petrolífera do planeta, a Venezuela sempre foi um alvo estratégico. Para Trevisan, ignorar esse elemento é perder a chave para entender a rapidez da operação e o interesse direto de Washington.
“Trump tinha dívidas eleitorais com a indústria petrolífera. Ele resolveu pendências com outros setores, mas ainda faltava esse”, pontua.
Trump, popularidade e a lógica do “troféu”
O professor também insere a ação no contexto interno dos Estados Unidos. Com desgaste político e necessidade de sinalizar força à sua base eleitoral, Trump teria buscado um resultado de alto impacto simbólico.
“O petróleo se tornou uma necessidade midiática para Trump. A Venezuela estava disponível. Era um troféu fácil de apresentar”, avalia.
Apesar do sucesso inicial da operação, Trevisan alerta para os riscos de qualquer tentativa de administração direta do país pelos Estados Unidos. Experiências recentes no Oriente Médio e no Norte da África, segundo ele, mostram que esse tipo de intervenção tende a gerar instabilidade prolongada.
“É imprudente falar em administrar um país com quase 30 milhões de habitantes. Os exemplos do Iraque, da Líbia e do Afeganistão estão aí”, afirma.
Para o especialista, a saída de Maduro não encerra a crise venezuelana nem garante estabilidade regional. Pelo contrário, pode inaugurar uma nova fase de disputas, rearranjos de poder e tensão geopolítica.
“Temo que estejamos apenas no começo do jogo”, conclui.
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