O PT decidiu dar um passo público para reorganizar seu discurso sobre segurança, tema que ganhou ainda mais peso após a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais. Nesta segunda-feira, o partido lançou, no Rio, uma cartilha com diretrizes para uma política nacional de segurança pública. O evento, promovido pela sigla em parceria com a Fundação Perseu Abramo, reuniu lideranças e especialistas, mas também escancarou tensões internas.
A cartilha apresentada traz diagnósticos e propostas que apostam em prevenção, inteligência, monitoramento tecnológico e integração entre governos. O texto defende o rastreamento financeiro das facções, ocupação permanente de territórios vulneráveis e programas sociais capazes de impedir que jovens sejam cooptados pelo crime, num modelo menos bélico e mais estratégico.
Mas, no palco, a unidade pregada pelo partido mostrou seus limites. O presidente estadual do PT, Diego Zeidan, elogiou a megaoperação do governo do Rio e chegou a citar que a guarda municipal de Maricá, administrada por seu pai, o prefeito Washington Quaquá, pretende ser armada com fuzis. A declaração evidenciou o flanco mais duro da legenda no estado.
Na sequência, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) reagiu e repudiou ações violentas, defendendo que o Estado precisa ocupar diariamente os territórios e desmontar as finanças das facções. Benedita destacou que o governo Lula tem avançado com operações como a Carbono Oculto, focada em rastrear o dinheiro do crime. Para ela, sem controle financeiro e sem presença estatal contínua, nenhuma operação policial gera resultado duradouro.
O presidente nacional da sigla, Edinho Silva, reforçou o discurso de que o foco deve ser inteligência e redução da letalidade policial. Segundo ele, o país não pode naturalizar a “polícia de confronto”, e qualquer política séria deve combinar a asfixia financeira das facções com programas sociais e reinserção de egressos.
Edinho admitiu que existem diferenças, mas pregou que o partido precisa sair do encontro com um plano consistente para dialogar com a sociedade. “Consenso só se constrói conversando”, afirmou, destacando a necessidade de apresentar uma proposta sólida antes das eleições.
Presente ao seminário, o ex-ministro José Dirceu admitiu erros históricos do partido e disse que o esforço agora é “unificar o PT em torno de uma proposta de segurança pública” num momento em que o crime organizado expande sua atuação pelo país. Ele afirmou que o partido deverá trabalhar até abril para consolidar uma estratégia eleitoral e programática nacional.
A Fundação Perseu Abramo avalia que a cartilha servirá como base de diálogo com a sociedade e como insumo para futuras propostas legislativas. Enquanto a direita cresce nas pesquisas no Rio impulsionada pelo discurso de enfrentamento armado, o PT tenta reorganizar seu próprio tom, evitar rupturas e mostrar que tem um projeto viável num dos temas mais sensíveis da política brasileira.
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