A relação entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), atingiu seu ponto mais crítico desde o início do governo Lula. Revoltado com a escolha do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF), Alcolumbre avisou a interlocutores que, daqui para frente, será um “novo Davi”, e que o governo aprenderá, da pior forma, o que significa perder o apoio do chefe do Senado.
De portas fechadas, o senador deixou claro o rompimento: “Vou mostrar ao governo o que é não ter o presidente do Senado como aliado.” O incômodo não é novo, mas se agravou após Lula confirmar pessoalmente a indicação de Messias, contrariando o desejo de Alcolumbre, que trabalhava nos bastidores pela escolha de Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
O descontentamento sobrou até para o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), amigo de Messias. Irritado, Alcolumbre disse ao petista que não o procurasse mais, um recado direto de que a relação política entre ambos está completamente desgastada.
Pauta-bomba em marcha
Logo após o anúncio da indicação, Alcolumbre passou a tirar da gaveta projetos que o governo considerava controlados. Entre eles, medidas que ampliam gastos públicos e devem impor novas derrotas ao Planalto. A principal delas é a mudança no Orçamento para obrigar o pagamento das emendas parlamentares já no primeiro semestre de 2026, ano eleitoral.
Outra frente de desgaste será a CPI do INSS e a retomada do projeto que regulamenta a aposentadoria especial de agentes comunitários de saúde e combate a endemias, proposta com impacto fiscal acima de R$ 20 bilhões em dez anos e que estava parada a pedido da equipe econômica. Agora, deve ir a votação imediatamente.
Além disso, o Congresso se prepara para analisar mais de 50 vetos presidenciais, entre eles o que flexibiliza normas de licenciamento ambiental. O governo já admite novas derrotas e prepara recursos ao STF quando houver impacto fiscal.
Governo aposta em discurso público para isolar Congresso
Diante da ofensiva, o Planalto pretende reagir politicamente, levando às redes sociais a narrativa de que o Congresso age para sabotar o governo e favorecer corporações. Estrategistas do presidente recordam que a tática funcionou quando a Câmara tentou aprovar a chamada PEC da Blindagem, depois barrada pelo Senado.
Nos bastidores, no entanto, ministros avaliam que Alcolumbre usa a polêmica como pretexto para ampliar seu poder de barganha, ainda mais em um momento em que a relação com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), também se deteriora.
Operação da PF aumenta tensão
A crise política coincide com o impacto no Congresso da operação que atingiu o Banco Master, cujo escândalo respingou sobre aliados de Alcolumbre. Investimentos elevados do fundo de pensão Amapá Previdência (Amprev) no banco levantaram questionamentos, já que o diretor-presidente da entidade e um de seus conselheiros têm ligação direta com o senador.
Segundo aliados, Alcolumbre afirma que as informações foram divulgadas de forma distorcida para desgastar sua imagem.
Indicação à prova no Senado
Enquanto isso, a indicação de Jorge Messias ainda precisa passar pela sabatina da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo plenário. O clima é de incerteza: pelas contas de Alcolumbre, o advogado-geral da União não teria, hoje, mais de 31 votos, insuficientes para chegar aos 41 necessários.
Messias deve iniciar sua peregrinação por senadores do Centrão e do PL, e conta com o apoio de André Mendonça, ministro do STF, e da senadora Eliziane Gama (PSD-MA), ambos do meio evangélico.
Mas a chave do processo continua nas mãos de Alcolumbre, que controla o ritmo da CCJ. Questionado sobre quando enviará a indicação ao colegiado, o senador foi enigmático: “Agora é cada um dentro das suas próprias prerrogativas.”
No Senado, poucos arriscam prever se o presidente da Casa pretende atrasar o relógio, ou obrigar Messias a correr contra ele. O que todos sabem é que, a partir de agora, o governo terá de operar em campo minado.
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